Terminou o tratamento, mas o medo do câncer de mama continua

Saúde Outubro Rosa 08/10/2026 15:14 Ana Cristina Campos - Agência Brasil agenciabrasil.ebc.com.br Rio de Janeiro RJ

Especialistas explicam que, após a cura do câncer de mama, muitas mulheres enfrentam ansiedade, medo de recaída e mudanças no corpo que afetam a vida pessoal e profissional, exigindo apoio psicológico e médico contínuo.

As campanhas de outubro rosa costumam focar na prevenção, no diagnóstico e no tratamento do câncer de mama. Porém, existe um aspecto menos discutido: mesmo quando o tratamento médico termina, o medo de a doença voltar assombra muitas mulheres.

Enquanto familiares e amigos celebram a remissão da doença e esperam que a vida volte ao normal, a paciente pode continuar convivendo com medos, inseguranças e transformações que não desaparecem apenas porque a quimioterapia ou a radioterapia acabou.

  • O fim do tratamento não elimina a ansiedade por completo.
  • A redução do contato constante com médicos pode gerar incertezas.
  • Familiares podem se afastar, deixando a paciente isolada no medo.
  • Mudanças no corpo afetam a sexualidade e a autoestima.
  • O apoio psicológico continua sendo essencial no pós-tratamento.

O vazio após o fim do tratamento

A psicóloga clínica Laís Mutuberria Vieira explica que, durante meses, a mulher enfrenta uma rotina intensa de hospitais, médicos e exames, com pessoas sempre por perto acompanhando sua saúde. Quando a quimioterapia e a radioterapia terminam, esse contato diminui e começa uma nova etapa cheia de incertezas, medo de a doença voltar e transformações na própria vida.

De acordo com a especialista, assim como o acompanhamento médico continua importante, o suporte emocional também pode precisar permanecer. Esse cuidado deve respeitar o ritmo de cada mulher e ajudá-la a reconstruir a confiança na própria vida, mesmo sem a possibilidade de eliminar todas as incertezas.

A última sessão de quimioterapia ou radioterapia pode marcar o fim de um tratamento, mas não o cuidado com essa mulher, que ainda precisa continuar.

O medo da solidão e da recaída

Segundo a psicóloga, muitos familiares e amigos se afastam para voltar à rotina normal, e a mulher, temendo a recidiva da doença, fica marcada pelo medo da solidão.

Os exames de acompanhamento podem despertar medo, qualquer alteração ou dor pode ser interpretada como reincidência da doença. Essa mulher ainda precisa de apoio, diz Laís.

Ela lembra que muitas pacientes continuam usando medicação por até cinco anos e sentem fadiga, além de outros efeitos desse tratamento de acompanhamento.

Impactos no corpo e na sexualidade

O corpo dessa mulher mudou. Ela tem cicatriz, às vezes perdeu uma mama ou ganhou uma nova que ainda não se identifica. A sexualidade pode mudar, assim como a intimidade com o parceiro. A disposição para atividades diárias e para a vida sexual também diminui.

Essas mudanças podem afetar a autoestima, o desejo, a sensação de atratividade e a forma como essa mulher se reconhece no espelho, repercutindo também em dimensões mais amplas da sexualidade, como o toque, a espontaneidade, a confiança e a disponibilidade para o vínculo íntimo, acrescenta.

Importância do apoio multidisciplinar

Renata Reis Pinto, médica mastologista e radiologista do Instituto Nacional de Câncer (Inca), lembra que o câncer de mama ainda é uma doença com muitos estigmas. Na prática clínica, ela afirma que a doença ainda é vista como uma sentença de morte, trazendo muitas dúvidas e medo sobre a evolução do quadro.

Para a médica, providenciar todo o aparato para a paciente falar sobre suas questões é importante até para a evolução do tratamento.

É importante oferecer para a paciente um tratamento multidisciplinar, com uma assistente social que pode ajudar em questões como onde vai ficar o filho enquanto ela está em tratamento, questões sociais relacionadas ao trabalho. A psico-oncologia é de fundamental importância para perceber até que ponto esse medo está sendo tão intenso que a paciente possa necessitar de alguma medicação, afirma Renata.

Depoimento: a vida após o câncer

Josiane Fernandes, 48 anos, de Volta Redonda, no sul do Rio de Janeiro, descobriu o câncer de mama no início de 2025 ao perceber um nódulo na mama esquerda. Em março do ano passado, ela confirmou o diagnóstico e começou o tratamento.

Eu não contei para ninguém. Eu sofri sozinha. Só contei para meu marido depois de fazer a biópsia. Meu tratamento com cirurgia, quimioterapia e imunoterapia durou por volta de um ano e três meses. Entrei em depressão, precisei de tratamento, conta.

Após o fim do tratamento do câncer, Josiane continua o acompanhamento médico.

O tratamento pode terminar, mas o medo nem sempre termina junto. Até hoje, numa consulta de rotina, num exame, eu entro em pânico. Parece que volta tudo o que eu vivi. As pessoas que passam por um câncer deveriam ter um cuidado no pós-tratamento. Existe vida depois do câncer, mas essa vida precisa ser reconstruída, completa Josiane.

Os números do câncer de mama no Brasil

Segundo a estimativa do Inca para este ano, o tumor mais incidente entre as mulheres é o de mama, com 30% dos casos. O número estimado de casos novos da doença no Brasil, para cada ano do triênio de 2026 a 2028, é de 78.610 casos, com risco estimado de 71,57 casos novos a cada 100 mil mulheres.