Teste de DNA prevê evolução da depressão em jovens brasileiros

Saúde Saude Mental 07/09/2026 09:18 Assessoria de Imprensa CISM/Agência Fapesp agenciasp.sp.gov.br

Estudo com mais de 2 mil jovens mostra que genes podem indicar risco de depressão severa e autolesão, avançando o diagnóstico precoce em uma população miscigenada.

Um estudo realizado com mais de 2 mil crianças e jovens de São Paulo e Porto Alegre revelou que uma ferramenta de mapeamento genético pode ajudar a identificar pessoas mais vulneráveis à depressão.

O teste sinaliza ainda a tendência da gravidade da doença desde a infância até o início da vida adulta.

  • Mais de 2 mil jovens entre 6 e 23 anos foram avaliados em três fases do desenvolvimento.
  • O estudo é um avanço porque a maioria das pesquisas similares foca apenas em pessoas de origens europeias.
  • Genes com maior risco genético estão ligados a um agravamento mais rápido dos sintomas da depressão.
  • O trabalho conecta o risco genético à chamada "autolesão não suicida", como cortes e queimaduras sem intenção de morrer.
  • Os resultados foram publicados na revista científica Biological Psychiatry.

Os genes influenciam a progressão da doença


No trabalho, cientistas vinculados ao Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM) constataram que indivíduos com maior pontuação nesse escore genético tendem a apresentar um agravamento mais rápido dos sintomas ao longo dos anos.

Além disso, quando já diagnosticados com transtorno depressivo maior (TDM), esses jovens demonstram maior suscetibilidade à "autolesão não suicida".

Essa condição é o ato de causar dano intencional ao próprio corpo, como cortes, queimaduras, arranhões ou pancadas, sem a intenção de provocar a morte.

Os resultados, publicados em julho na revista Biological Psychiatry, comprovam a utilidade desse marcador preditivo em populações muito misturadas, como a brasileira.

Um avanço para a genética médica


Trata-se de um avanço metodológico importante, visto que a maioria dos estudos sobre o chamado "risco poligênico" se concentra em indivíduos de ancestralidade europeia.

Esse foco anterior limitava a precisão dessas ferramentas para outros contextos geográficos e culturais.

Os novos dados mostram que é possível aplicar esses testes com mais confiança em pessoas de origens diversas.

Essa descoberta é fundamental para que o tratamento seja mais justo e eficaz para a população brasileira.

A voz dos pesquisadores envolvidos no estudo


"Nosso artigo buscou responder se o risco genético para depressão apenas define um ponto de partida para o surgimento do transtorno ou se também molda a forma como os sintomas evoluem à medida que um jovem cresce", explica o psiquiatra Marcelo Brañas.

Ele assina o estudo ao lado do pesquisador Lucas Ito, ambos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O duo procurou saber também se as ferramentas já existentes funcionam fora de populações de ascendência europeia, uma vez que as populações brasileiras miscigenadas seguem amplamente ausentes da genética psiquiátrica.

Isso abre caminho para um entendimento mais profundo de como a biologia interage com a saúde mental desde cedo.

Marcador preditivo em jovens de alto risco


Para chegar a essas conclusões, o grupo avaliou 2.163 jovens, com idades entre 6 e 23 anos, acompanhados em três fases distintas do desenvolvimento.

Os voluntários integram a Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais (BHRC, na sigla em inglês), um amplo projeto que há mais de 15 anos investiga a origem genética e ambiental dos transtornos psiquiátricos.

No âmbito do CISM, a iniciativa recebe o nome de "Conexão Mentes do Futuro".

Essa base de dados de longo prazo permitiu observar as mudanças nos sintomas ao longo do tempo de forma consistente.

O estudo reforça a importância do acompanhamento longitudinal na medicina preventiva.

Conexão entre genes e comportamentos graves


O trabalho demonstra que a genética tem um papel ativo na evolução clínica da depressão.

No entanto, os autores destacam que esses dados precisarão ser integrados a informações clínicas e ambientais para permitir predições individuais no futuro.

"Nesse grupo de jovens, o risco poligênico para transtorno depressivo maior demonstrou relativa especificidade diagnóstica e identificou um curso de evolução mais grave da depressão", destaca Ito.

Ele acrescenta que a associação da genética com a autolesão em indivíduos já diagnosticados ajuda a compreender os mecanismos por trás dos comportamentos mais graves da doença.

"Isso reforça a relevância de estudar populações com diferentes ancestralidades", avalia o pesquisador.

Intervenções futuras e apoios ao estudo


A descoberta abre caminho para futuras estratégias de monitoramento e intervenção psiquiátrica precoce.

Com esses dados, será possível identificar quais jovens precisam de atenção redobrada antes que a condição se agrave significativamente.

A pesquisa foi orientada pelo professor Euripedes Constantino Miguel, coordenador do CISM.

Recebeu coorientação de Pedro Mario Pan, pesquisador da BHRC e da Unifesp, e mentoria de Lois Choi-Kain, da Harvard University (Estados Unidos).

Essa colaboração internacional demonstra a relevância do tema globalmente.

Esse nível de cooperação eleva o padrão científico da pesquisa brasileira em saúde mental.

O CISM é um Centro de Pesquisa Aplicada (CPA) apoiado pela Fapesp e sediado na Universidade de São Paulo (USP).

A equipe conta com pesquisadores da Unifesp, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), do Centro Universitário de Jaguariúna (UniFAJ) e do Centro Universitário Max Planck (UniMAX Indaiatuba).