Corpo musculoso pode esconder problemas no coração

Saúde 07/08/2026 08:30 Brazil Health jovempan.com.br

Casos recentes reacenderam o debate sobre a relação entre aparência física e saúde cardiovascular. A cardiologista Fernanda Almeida Andrade explica por que músculos aparentes não protegem contra doenças do coração e quando é preciso investigar o risco.

Nas redes sociais, um corpo musculoso, definido e com baixo percentual de gordura costuma ser visto como sinônimo de saúde. A combinação entre treino intenso, alimentação rigorosa e desempenho físico cria a impressão de que quem exibe esse padrão está protegido contra doenças. Mas quando o assunto é coração, a aparência pode enganar.

Hipertensão, arritmias, colesterol elevado, doenças genéticas, obstruções das artérias e insuficiência cardíaca também podem acometer pessoas com excelente condicionamento físico. Em alguns casos, o primeiro sinal é justamente o mais grave: uma morte súbita durante o exercício ou em competições.

  • Músculos não garantem saúde do coração: pessoas com corpos musculosos podem ter problemas cardíacos graves, como hipertensão e arritmias.
  • Casos recentes de morte: fisiculturistas como Gabriel Ganley (22 anos) e Mailson Araújo Santos (35 anos) morreram subitamente, levantando alertas.
  • Estudo de 2025: pesquisa com mais de 20 mil fisiculturistas mostrou que 38% das mortes foram por parada cardíaca, e o risco entre profissionais é 5 vezes maior que entre amadores.
  • Esteroides aumentam riscos: usuários de anabolizantes têm 3 vezes mais chance de infarto e quase 9 vezes mais chance de cardiomiopatia, segundo estudos.
  • Avaliação médica é essencial: sintomas como desmaios, tonturas ou dor no peito durante o exercício devem ser investigados, mesmo em atletas.

Em maio de 2026, o fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley morreu aos 22 anos. O atestado de óbito apontou cardiomiopatia hipertrófica, doença caracterizada pelo espessamento anormal do músculo cardíaco, geralmente associada a alterações genéticas, embora alterações semelhantes também possam ocorrer em pessoas expostas ao uso abusivo de esteroides anabolizantes androgênicos. Poucas semanas depois, o fisiculturista profissional Mailson Araújo Santos morreu aos 35 anos após passar mal às vésperas de uma competição. Até o momento, a causa oficial não havia sido divulgada.

Esses episódios não permitem estabelecer uma relação direta de causa e efeito, mas reforçam uma discussão presente na literatura científica: um corpo extremamente musculoso não garante proteção cardiovascular e pode coexistir com fatores que aumentam o risco de doenças graves.

Um estudo publicado em 2025 no European Heart Journal acompanhou mais de 20 mil fisiculturistas homens que participaram de competições internacionais. Foram registradas 121 mortes, das quais 38% ocorreram por morte súbita cardíaca. Entre atletas profissionais, o risco global de morte foi aproximadamente cinco vezes maior do que entre fisiculturistas amadores. A idade média dos profissionais que sofreram morte súbita durante a atividade competitiva foi de apenas 35 anos.

Segundo os pesquisadores, esse risco resulta da combinação de diversos fatores. No fisiculturismo de alto rendimento podem coexistir treinamento extremo, predisposição genética, hipertensão, alterações do colesterol, uso de estimulantes, hormônios, esteroides anabolizantes, diuréticos e estratégias agressivas de desidratação. Isoladamente, cada um atua de forma diferente, mas seus efeitos podem se somar sobre um coração vulnerável.

Outra pesquisa, publicada em 2025 na revista Circulation, acompanhou 1.189 homens usuários de esteroides anabolizantes e os comparou com mais de 59 mil indivíduos sem histórico de uso. Após cerca de onze anos, os usuários apresentaram risco três vezes maior de infarto, mais que o dobro de arritmias, risco 3,6 vezes maior de insuficiência cardíaca e quase nove vezes maior de cardiomiopatias.

Outros estudos publicados no JAMA e no JAMA Network Open encontraram mortalidade quase três vezes maior entre usuários de anabolizantes e associaram o tempo de exposição a essas substâncias ao desenvolvimento precoce de placas nas artérias coronárias, calcificação vascular e comprometimento da função cardíaca. Embora sejam estudos observacionais e não comprovem causalidade, o conjunto das evidências reforça que esses riscos não devem ser ignorados.

Músculos aparentes podem esconder riscos reais

Na prática clínica, um dos maiores desafios é diferenciar adaptações provocadas pelo treinamento intenso de alterações que indicam doença. O chamado “coração de atleta” corresponde ao aumento fisiológico da espessura do músculo cardíaco em resposta ao exercício. Já alterações semelhantes podem ser consequência de cardiomiopatias genéticas, hipertensão arterial ou do uso prolongado de esteroides anabolizantes.

Nem toda alteração encontrada no coração de uma pessoa muito treinada representa uma doença, assim como nem todo atleta está livre de problemas cardiovasculares. O papel da avaliação médica é justamente diferenciar uma adaptação fisiológica de uma condição que exige investigação ou tratamento.

Por isso, a avaliação cardiovascular vai além do chamado check-up anual, e começa com uma história clínica detalhada, incluindo hábitos de treino, uso de medicamentos, suplementos ou hormônios, antecedentes familiares e sintomas muitas vezes negligenciados.

Desmaios durante ou após o exercício, tonturas frequentes, palpitações persistentes, dor no peito, falta de ar desproporcional ao esforço e perda inesperada de desempenho merecem investigação. Da mesma forma, mortes súbitas ou doenças cardíacas em parentes próximos, especialmente em idade jovem, podem indicar a necessidade de uma avaliação mais aprofundada. Quando necessário, exames como eletrocardiograma, ecocardiograma, teste ergométrico, Holter, ressonância magnética cardíaca e testes genéticos ajudam a esclarecer o diagnóstico, sempre de forma individualizada.

Treinar faz bem, mas o coração também precisa de acompanhamento

Os benefícios da atividade física para o coração estão amplamente estabelecidos pela ciência. Exercícios regulares reduzem o risco de hipertensão, diabetes, obesidade, infarto, acidente vascular cerebral e insuficiência cardíaca, além de contribuírem para o aumento da expectativa e da qualidade de vida.

O problema surge quando a aparência física passa a ser interpretada como prova absoluta de saúde ou quando a busca por desempenho leva à adoção de estratégias que aumentam o risco cardiovascular. Um corpo musculoso pode transmitir uma imagem de força, mas não revela, sozinho, como estão a pressão arterial, o colesterol, o funcionamento das válvulas cardíacas, a presença de placas nas artérias ou doenças hereditárias que permanecem silenciosas durante anos.

Também é importante lembrar que um exame normal em determinado momento não representa uma garantia permanente. O risco cardiovascular muda ao longo da vida e pode ser influenciado por fatores genéticos, envelhecimento, hipertensão, hábitos de vida e pela exposição contínua a substâncias potencialmente nocivas.

Treinar faz bem para o coração, mas isso não elimina a necessidade de acompanhamento médico quando existem fatores de risco ou sinais de alerta. O objetivo não é desencorajar a prática esportiva, e sim mostrar que desempenho físico e saúde cardiovascular nem sempre caminham juntos.

A falsa ideia de que músculos representam proteção absoluta pode atrasar diagnósticos importantes e fazer com que sintomas relevantes sejam ignorados. Em cardiologia, a prevenção continua sendo a estratégia mais eficaz para reduzir complicações e evitar mortes precoces. Afinal, um corpo forte pode transmitir uma imagem de saúde, mas é a avaliação médica que revela como está de fato o coração.