Depois que o banco digital Ueno fechou as portas e deixou 3 milhões de clientes sem acesso ao dinheiro, a oposição no Paraguai pediu o impeachment do presidente Santiago Peña. Ele é acusado de conflito de interesses por ter sido sócio do banco. Oito executivos foram presos e o governo tenta acelerar a devolução dos valores.
A crise provocada pelo fechamento do banco digital Ueno levou 35 deputados da oposição paraguaia a apresentar, nesta quarta-feira (4), um pedido de impeachment contra o presidente Santiago Peña. Os parlamentares acusam o chefe do Executivo de envolvimento em irregularidades relacionadas à instituição financeira, que entrou em processo de liquidação e deixou milhares de correntistas sem acesso aos próprios recursos.
O pedido foi encaminhado à presidência da Câmara dos Deputados, acompanhado de uma solicitação para a realização de uma sessão extraordinária nesta quinta-feira (5). A abertura do processo depende do apoio de dois terços dos parlamentares, e ainda não há indicação de que a base governista esteja disposta a apoiar a iniciativa.
- O que houve: O banco digital Ueno foi fechado pelo Banco Central por falta de dinheiro para pagar os clientes.
- A acusação: O presidente Santiago Peña é acusado de conflito de interesses, pois era sócio do grupo dono do banco.
- Dano aos clientes: Cerca de 3 milhões de pessoas ficaram sem acesso a seus depósitos instantaneamente.
- Prisões: Oito dirigentes do banco, incluindo o presidente-executivo, foram presos.
- Próximo passo: A oposição tenta uma sessão extraordinária na Câmara para votar o impeachment.
A relação do presidente com o banco
Peña, que governa o Paraguai desde 2023, manteve participação acionária no grupo proprietário do Ueno até março de 2025. O banco, pertencente ao Grupo Vázquez, possuía aproximadamente 3 milhões de clientes e administrava cerca de US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo valores vinculados ao Instituto de Previdência Social do país.
A oposição sustenta que a relação anterior do presidente com o grupo financeiro configura conflito de interesses. Os deputados também apontam suspeitas de manipulação de normas, desvio de recursos previdenciários e possível participação de autoridades reguladoras no encobrimento de irregularidades.
Durante a sessão parlamentar que antecedeu a apresentação do pedido, a deputada Rocío Vallejo responsabilizou diretamente Peña pelos prejuízos provocados pela crise bancária.
Nunca antes alguém prejudicou, em um único dia, 3 milhões de pessoas na República do Paraguai, e o senhor conseguiu isso, senhor presidente o senhor é a origem desse monstro que criou, declarou a parlamentar.
Fechamento do banco e prisões
A instituição encerrou suas atividades na terça-feira (3), depois que o Banco Central do Paraguai determinou sua liquidação. A medida ocorreu após a identificação de insuficiência de recursos para cumprir as obrigações financeiras do Ueno, situação associada à concessão de empréstimos a empresas ligadas ao próprio banco.
O caso também provocou mudanças na estrutura de fiscalização financeira do Paraguai. Carlos Carvallo deixou a presidência da entidade responsável pela supervisão do banco, enquanto oito dirigentes do Ueno foram presos, entre eles o presidente-executivo Miguel Vázquez.
Os executivos se apresentaram às autoridades após a expedição de mandados de prisão pela Procuradoria. Ao todo, 27 pessoas ligadas à instituição foram formalmente acusadas, e a Justiça determinou o bloqueio de bens dos investigados.
A dimensão da crise provocou preocupação entre clientes de outras instituições financeiras. Na quarta-feira, relatos de instabilidade em aplicativos bancários circularam no país, em meio ao aumento das movimentações de correntistas que buscavam transferir recursos do Ueno.
A Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) informou que as instituições estavam trabalhando para absorver a demanda adicional. A entidade afirmou, entretanto, que o sistema financeiro permanecia operando normalmente.
Reação oficial e expectativa
Santiago Peña ainda não se manifestou diretamente sobre o pedido de impeachment. Em publicação na rede social X, afirmou que os responsáveis pelas irregularidades deverão responder judicialmente, independentemente de quem sejam.
A declaração ocorreu pouco antes da promulgação de uma lei destinada a acelerar a devolução dos valores depositados pelos clientes do Ueno. O governo busca reduzir os efeitos da liquidação sobre os correntistas, enquanto avançam as investigações sobre a administração da instituição.
Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse, afirmou Peña.
A continuidade do processo político dependerá da votação na Câmara dos Deputados. Sem os votos necessários para autorizar o impeachment, a iniciativa da oposição não poderá avançar, mesmo diante das investigações sobre o banco.

José Cruz / Agência Brasil



