Religião vira arma principal na campanha de Flávio Bolsonaro contra Lula

Política Religião 25/10/2026 15:41 Anna Virginia Baloussi, Folhapress noticiasaominuto.com.br São Paulo SP

Flávio Bolsonaro apostou fortemente em uma narrativa de 'guerra espiritual' e ataques à esquerda, mobilizando pastores e influenciadores religiosos para pressionar os eleitores. A estratégia ganhou força após apoios de última hora de grandes líderes evangélicos.

Nesta sexta-feira (23), dia em que Flávio Bolsonaro (PL) atacou o presidente Lula por supostamente ter "nove dedos" durante um debate na Globo, a deputada Ana Campagnolo publicou uma imagem na internet que fazia referência ao dedo mindinho do presidente, perdido em um acidente de trabalho quando ele era jovem torneiro mecânico. Na foto, apareceram tarjas com termos como "ideologia de gênero", "aborto", "legalização das drogas" e "repressão à nossa fé". Abaixo, a frase dizia: "cristão não vota em candidato indicado por gente que sempre defendeu isso!".

Na legenda da publicação, Ana Campagnolo, autodeclarada "conservadora, cristã e antifeminista" e a parlamentar mais bem votada para a Assembleia Legislativa de Santa Catarina, afirmou que, a cada quatro anos, reaparecem os mesmos personagens com "a máscara da candura". Segundo ela, essas pessoas são "muito 'simpáticas' e 'empáticas', como se não tivessem passado a maior parte de suas vidas públicas [...] tratando nossos valores como sinônimo de atraso".

  • A estratégia do PL focou em transformar o voto em uma questão de lealdade religiosa, invocando uma "guerra espiritual" entre o bem e o mal.
  • Grandes líderes evangélicos, como o missionário R.R. Soares, deram apoio explícito a Flávio Bolsonaro apenas na reta final da campanha.
  • Influenciadores como Bella Falconi incentivaram "jejuns e orações" para "liberar o país de uma ideologia demoníaca".
  • O discurso político evitou as pautas morais tradicionais (como aborto) e priorizou ataques a religiões de matriz africana e à esquerda em geral.
  • Flávio Bolsonaro tentou limpar sua imagem religiosa com batismo em igreja evangélica e promessas de decretar que "o Brasil é do Senhor Jesus Cristo".

Aposta na fé como ferramenta política

Essa peça de comunicação convocava as pautas morais para defender que cristãos rejeitem candidatos associados à esquerda. A estratégia era clara: apresentar o voto não apenas como uma escolha política, mas como uma questão de fidelidade religiosa. É esse tipo de conteúdo que saiu do debate central nesta eleição presidencial para ser explorado de lado por aliados de Flávio Bolsonaro, como o deputado eleito Lucas Pavanato (PL-SP), conhecido por sua oposição estridente às pautas LGBTQIA+, e a futura deputada estadual Eduarda Campopiano (PL-SP), que pretende fortalecer o discurso antifeminista nos parlamentos estaduais.

Embora o elemento moral tenha existido na campanha principal, como na promessa de Flávio de punir abusadores sexuais com castração química, as pautas morais clássicas, como as levantadas por Ana Campagnolo, ficaram em segundo plano. O que mais se destacou foi o discurso da "guerra espiritual", que transfere a disputa política para um confronto binário entre o bem e o mal, pintando o possível triunfo do adversário como uma ameaça existencial à nação.

Um levantamento de perfis digitais religiosos, realizado em parceria pela Casa Galileia e pelo Instituto Democracia em Xeque, deixa esse cenário mais claro. Nos dias que antecederam o segundo turno, houve forte mobilização para campanhas de "jejum e oração pelo Brasil", incentivadas por influenciadores como Bella Falconi, usadas como arma para "liberar o país de uma ideologia demoníaca".

Lideranças religiosas quebram o silêncio

A religiosidade tocou todos os ângulos dessa disputa eleitoral. O candidato do PL fez o tour tradicional por igrejas, testando os limites da Justiça Eleitoral, que proíbe pedidos de voto dentro de templos. Em agosto, em um novo aceno aos evangélicos, Flávio prometeu decretar "que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo" como um dos primeiros atos de sua Presidência, caso fosse eleito.

A bancada evangélica no Congresso se expandirá, impulsionada por influenciadores como Pavanato e Nikolas Ferreira (PL-MG), que foram campeões de voto. Cresceram também os ataques a religiões de matriz africana, retratadas como linha auxiliar das forças das trevas nessa batalha espiritual invocada pelo bolsonarismo. Nikolas Ferreira escreveu em um post: "A gente não ora o Pai-Nosso à toa", reproduzindo um vídeo de um ato pró-Lula chamado "Tambores pela Democracia", promovido por umbandistas e candomblecistas na quinta-feira (22). Na gravação, manifestantes cantam sobre "manter Bolsonaro amarrado num cipó".

Ao contrário do que sugerem bolsonaristas, essa expressão vem da tradição da Jurema, uma religião afro-indígena com origem no Nordeste. Ela tem a ver com "invocar proteção espiritual e o afastamento de forças que considera ameaçadoras", e não com "desejar literalmente a morte de uma pessoa", explica Carolina Rocha, pesquisadora do Iser (Instituto de Estudos da Religião) e autora do livro "A Culpa é do Diabo: O que Li, Vivi e Senti nas Encruzilhadas do Racismo Religioso".

A reta final da campanha foi marcada também por apoios de última hora de líderes evangélicos de grande porte nacional que ainda não haviam respaldado a candidatura de Flávio. Os dois maiores ministérios da igreja Assembleia de Deus, Belém e Madureira, deixaram clara sua preferência pelo senador.

O apoio do missionário R.R. Soares

O missionário R.R. Soares, líder da Igreja Internacional da Graça de Deus, nunca escondeu sua simpatia por Jair Bolsonaro, mas também não havia falado nada publicamente a favor do primogênito dele nesta eleição. Ele quebrou o silêncio na sexta-feira, com um post calibrado para não ofender diretamente Lula. "Não que eu tenha algo contra o outro, mas ele já governou tanto tempo, tem que deixar a mocidade começar agora. Nós já estamos de partida para a eternidade", disse o líder religioso, pioneiro no uso massivo do televangelismo no Brasil.

Aos 78 anos, dois a menos que Lula, Soares não conseguiu eleger nenhum dos cinco filhos que lançou para cargos no Legislativo. Com a atenção voltada para a disputa presidencial, ele incentivou o voto dos idosos e disse que escolheria Flávio porque ele "é novo, é da família do Bolsonaro, que a gente tem o maior respeito por ele".

Flávio começou a campanha com ressalvas por parte dessa ala religiosa. Muitos dos pastores que agora abraçam sua candidatura duvidavam de sua capacidade de reproduzir o apelo eleitoral do pai e temiam que suspeitas de corrupção se tornassem um passivo político grave, como de fato ocorreu, ainda que com menos aderência do que o imaginado a princípio.

A preocupação se voltava sobretudo para os escândalos de ordem moral. São notícias como a de que Flávio teria participado de uma festa numa lancha acompanhado de lobistas e prostitutas em plena pandemia e recebido presentes de luxo, como um relógio Rolex avaliado em R$ 300 mil. Líder do PL na Câmara e ex-presidente da bancada evangélica, Sóstenes Cavalcante diz que, ainda que emergissem evidências concretas de qualquer malfeito, os irmãos de fé perdoariam o convertido Flávio.

"O evangélico é a igreja que cura de todos os doentes espirituais. E até agora não existe nada de prova, só boataria. Ele nunca deixou de esconder que teve um período em que se distancou da fé", afirmou Cavalcante. Antes disso, Flávio precisou se converter evangélico "de verdade", como ele mesmo já declarou. O processo teria começado em 2022 e se consolidado com seu batismo na Comunidade das Nações, do bispo JB Carvalho, o mesmo que anos atrás defendeu derrubar Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira nacional.

A santa católica virou alvo de desgaste para Flávio a dias do primeiro turno. Já sob suspeita de que privilegiaria sua religião num eventual governo seu, o candidato teve que reagir ao boato de que resgataria um projeto de lei para retirar de Aparecida o status de padroeira. No entanto, ele nunca disse nada nesse sentido publicamente.