Caiado critica Bolsonaro, defende anistia e promete segurança dura

Política Sabatina 27/08/2026 07:16 EXTRA extra.globo.com

Caiado ataca Lula e Bolsonaro, mas não detalha propostas econômicas

Candidato à Presidência da República depois de 37 anos da primeira tentativa, quando também tinha Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entre os adversários, Ronaldo Caiado (PSD) oscila agora entre críticas à família Bolsonaro e acenos a pautas caras ao bolsonarismo. Segundo presidenciável a participar da sabatina O Globo, CBN e Valor, o ex-governador de Goiás martelou o discurso linha dura na segurança pública como principal bandeira eleitoral.

Um dos pioneiros na política brasileira a representar o agronegócio, o goiano analisou ainda o tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil seara na qual enfileira críticas tanto a Lula quanto aos Bolsonaro. Para ele, é péssimo, condenável, inimaginável que alguém opere contra a própria pátria, a exemplo da família do ex-presidente. Já o petista teria provocado o país de Donald Trump por meio da forma como conduz a política externa.

  • Caiado quer linha dura na segurança e planeja construir 40 presídios.
  • Ele critica a família Bolsonaro e cobra explicações sobre o caso Master.
  • Ele defende anistia para os presos do 8 de janeiro.
  • Ele prometeu superávit de 1,5% do PIB, mas não deu detalhes.
  • Ele é contra a aprovação automática de alunos.

Se é crítico aos integrantes da família Bolsonaro, o ex-governador flerta com o bolsonarismo em pautas como a anistia aos condenados pelo 8 de janeiro. Considera o que aconteceu na Praça dos Três Poderes uma baderna que Lula poderia ter evitado e compara os atos golpistas a invasões do MST. Vê no perdão aos presos uma forma de pacificar o país e se concentrar em pautas que realmente importam.

Assim como outros candidatos nesta eleição, Caiado defendeu genericamente a necessidade de colocar em curso um ajuste fiscal, mas sem detalhar que medidas adotaria. Não se debruçou sobre as minúcias de uma futura reforma da previdência, prometeu superávit de 1,5% no PIB do ano que vem e se diferenciou de Lula no universo econômico, a despeito de não se comprometer com cortes específicos.

Na pauta educacional, o candidato do PSD se colocou contra a política de aprovação automática dos alunos. A medida, disse, estimula o analfabetismo funcional dos brasileiros.

Caiado não tem conseguido despontar como opção à direita. No último Datafolha, divulgado no início da semana, aparece com 5%, bem abaixo dos 39% de Lula e dos 33% de Flávio. Numericamente, contudo, está à frente de Renan Santos (Missão), que marca 4%, e de Romeu Zema (Novo), 3%.

A série de sabatinas começou na terça-feira com Zema. Hoje é a vez de Renan Santos, e Augusto Cury (Avante) encerra amanhã a semana. Lula e Flávio Bolsonaro foram convidados, mas não confirmaram presença. Os líderes das pesquisas não têm participado de debates e sabatinas da imprensa, o que é uma das marcas deste início de campanha.

Compõem a mesa de entrevistadores os colunistas do Globo Malu Gaspar e Lauro Jardim, a colunista do Valor Econômico Maria Cristina Fernandes e o âncora da CBN Milton Jung. As sabatinas começam sempre às 10h30 e duram uma hora e meia. São transmitidas ao vivo pela rádio e pelas redes sociais dos veículos.

Segurança pública

Principal plataforma do ex-governador, que se gaba dos feitos em Goiás, a discussão sobre segurança pública fez o candidato reforçar o discurso linha dura ao minimizar os relatos de letalidade policial no estado. Declarou guerra ao crime organizado, prometeu construir 40 presídios de segurança máxima e usar as Forças Armadas nas ruas. Colocou-se contra o uso de câmeras corporais pelas polícias.

Vou, em primeiro lugar, declará-los terroristas, ter poder de ação sobre todas as forças que o presidente tem. Vou buscar tecnologia do mundo todo, as mais sofisticadas, vou identificar todos eles e construir 40 presídios de segurança máxima no Brasil disse.

Segundo Caiado, a falta de autoridade no Brasil leva à exaltação de personalidades como MC Poze e Oruam, rappers que desfilam com metralhadora e fuzil.

Você não vê isso em democracia, só vê isso onde as pessoas se ajoelharam para o crime, têm medo de enfrentar o crime.

O presidenciável, contudo, ficou irritado quando uma pergunta sobre feminicídio foi feita dentro do tema de segurança.

Meto algema nesse vagabundo, nesse covarde, meto a tornozeleira, e assim eu fiz no meu estado. Aí aumentou (em 113% o feminicídio em Goiás). Onde é que o feminicídio ocorre Mais de 70% dentro de casa. E aí você repassa 100% da responsabilidade para a segurança pública

Caiado disse que a polícia só passa a ter responsabilidade se tiver sido acionada para um caso específico. Até então, segundo ele, a chaga do feminicídio se perpetua por diferentes motivos familiares.

O cidadão chega lá, mete a cara na droga ou vai lá e enfia a cara nessas bets, perde o dinheiro todinho, a mulher começa a discutir com ele, ele vai lá, enfia a porrada na mulher, mata a mulher ou impõe graves lesões. O que nós não podemos é tratar um assunto tão grave de modo simplista apontou. Não tem como fazer um BBB dentro de cada casa no país. Agora, se o policial foi avisado e a polícia foi omissa, tudo bem (responsabilizar a segurança pública). Sou do único estado que tem Batalhão Maria da Penha, não é patrulhinha.

Críticas à família Bolsonaro

Mantendo a estratégia recente de ser enfático contra Flávio Bolsonaro (PL), o candidato do PSD classificou como "desrespeito" a falta de explicações dele no caso Master, que, ao contrário do que diz o senador, não seria "página virada".

É desrespeitar a inteligência do povo brasileiro. Você não tem o direito de ser candidato a presidente e se negar a dar esclarecimentos sobre algo em que você está envolvido disse ele, que cobrou do Supremo Tribunal Federal (STF) a quebra de sigilo dos casos Master, INSS e Carbono Oculto.

Caiado passou a bater com mais firmeza no presidenciável do PL, na contramão do que defendia o marqueteiro Paulo Vasconcelos, que deixou a campanha. Apesar da separação, o candidato apontou que a relação com o antigo estrategista é "ótima".O novo coordenador do marketing da campanha é Marcos Carvalho, que até então tocava apenas as redes do candidato.

Em outro momento da sabatina que culminaria com crítica, mesmo que indireta, a Flávio e Lula, o goiano afirmou que não será presidente "para cuidar de escândalo da minha família". Na visão dele, o país vive hoje uma desordem institucional e falta autoridade moral à Presidência da República.

Anistia e aceno ao bolsonarismo

A despeito do confronto com Flávio na pessoa física, ele mantém acenos ao bolsonarismo, como no caso da anistia aos presos pelo 8 de janeiro.

Eu vou anistiar todo mundo e ninguém vai falar desse assunto mais. Acabou. A partir dali, vou trabalhar, discutir saúde, investimento, indústria, terras raras elencou.

A justificativa do ex-governador foi a de muitos defensores da medida: a ideia de pacificar o país, embora historiadores tenham apontado, nos últimos anos, que a história brasileira é repleta de anistias que não viraram a página dos episódios a ela relacionados. Caiado, inclusive, deu o exemplo de Juscelino Kubitschek, que concedeu anistia a militares que tentaram um golpe contra ele. O candidato foi informado, no entanto, de que o próprio ex-presidente acabou vítima de outra tentativa de derrubada dele do poder pouco depois do perdão.

Ao falar do 8 de janeiro, o goiano classificou os ataques aos Poderes como baderna e criticou o que considera a falta de preparo do governo Lula para enfrentar a intentona, além de comparar os atos com invasões do MST.

O presidente da República, eu assumindo em janeiro, precisa de oito dias (para se preparar) Eu quero oito minutos só. Acha que alguém entra em Brasília e quebra poder Em oito dias, o presidente da República não sabia o que iria acontecer questionou. Eu vejo golpe com Forças Armadas. Agora, baderna Quando o MST entrou no plenário, quebrou o Ministério da Fazenda, distribuiu fazendas, isso também é atentado Isso é questão de interpretação. É a versão dada ao fato.

Tarifaço

Ex-governador de um estado muito afetado pelo tarifaço americano, o goiano foi instado a falar sobre como se comportaria no atual estágio da relação entre o Brasil e os Estados Unidos, mas tergiversou e errou o nome do ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira, que teria incentivado Lula a brigar com Trump para se eleger.

Eu não deixaria chegar a esse ponto. Eu não vou ficar seguindo a cabeça do Sifrônio apontou, antes de também condenar a posição da família Bolsonaro no caso. Péssimo, condenável, inimaginável pensar que qualquer brasileiro adote posição contrária à pátria. Eu não admito ingerência sobre o meu país. Jamais aplaudiria ou fomentaria isso.

É sobre Lula, no entanto, que recaem as principais reclamações de Caiado no caso do tarifaço. Dois municípios do estado comandado por ele até abril, Goiatuba e Goianésia, estão entre os mais prejudicados do país pelas taxas dos EUA.

Quem foi o primeiro que disse que iria desdolarizar a economia mundial Por que ele entra numa discussão em que não tem estatura para isso

A promessa do candidato é resgatar a diplomacia brasileira do que considera um viés ideológico.

Economia com promessas vagas

Crítico ao que considera despesas abusivas e medidas populistas do governo Lula, Caiado foi provocado a falar sobre ideias econômicas expansivas que tem defendido. Respondeu que não quer penalizar o mais pobre num eventual ajuste fiscal, embora tenha negado semelhança entre sua visão de governo e a de Lula.

Ele se comprometeu a um superávit de 1,5% no PIB do ano que vem, acima das previsões do mercado, e defendeu ajuste nas contas públicas sem detalhar como o faria.

Nada a ver. Não tem nenhuma semelhança (entre mim e o petista). Lula entende que equilíbrio fiscal é algo que tem que ser excluído, não tolera falar em equilíbrio fiscal. Estou falando é de gasto responsável no sentido de retomar a capacidade produtiva do país alegou. Os governos do PT são os piores do mundo porque servem como exemplo de má gestão. O que tem de pior no mundo

O ex-governador também evitou detalhar sua proposta para uma reforma da previdência. Observou que o assunto será discutido somente quando ele for eleito e após limpar a casa.

O que a mudança na aposentadoria altera no equilíbrio fiscal Em direito adquirido, você não toca nele. O que adianta mexer na previdência se só vai ter reflexo em muitos anos questionou Caiado. No momento em que eu ganhar a eleição, posso pedir dados, e a equipe de transição começa a trabalhar.

Em linhas gerais, o político do PSD afirmou que o governo tem que ser visto como um todo, não a partir de medidas fragmentadas.

Não pode fazer salaminho fatiado, é uma peça. Tem que enxergar o governo em toda a sua inteireza divagou.

Educação

Caiado criticou a política de progressão continuada de alunos da rede pública e afirmou que, no seu eventual governo, pretende exigir provas de proficiência a fim de garantir melhorias no ensino. Segundo o ex-governador de Goiás, o modelo atual contribui para a formação de estudantes que avançam de série sem dominar conteúdos básicos e cria analfabetos funcionais.

Aprovação automática Nunca ouvi falar isso em toda a minha vida. Você não sabe em nenhuma matéria e continua progredindo Lógico que isso é impossível, tem que ter prova de proficiência.

O candidato disse que não permitirá que alunos avancem de ano apenas em função da idade.

Passa de ano quem tem nota. Vou mudar isso no governo federal. Não vou preservar o analfabetismo funcional.

A taxa de aprovação nas escolas estaduais explodiu em 2025 nos locais onde os secretários de Educação criaram regras para os alunos passarem de ano mesmo que sejam reprovados em até seis disciplinas. Essa estratégia pedagógica é chamada de progressão parcial, mas ficou conhecida no passado como dependência, na qual os estudantes podem ser reprovados em algumas disciplinas e, mesmo assim, passar de ano.

Nesse sistema, os alunos passam de ano, mas, paralelamente, precisam estudar as matérias do ano anterior em que foram reprovados, acumulando aulas.

Caiado também pontuou que os critérios utilizados para medir o desempenho da educação precisam ser revistos para evitar o que chamou de falso positivo, em que indicadores podem melhorar sem que haja avanço equivalente no aprendizado dos estudantes. Ele defendeu a adoção de avaliações de proficiência tanto para alunos quanto para professores.