Crise entre Brasil e EUA divide governo Lula e preocupa economia

Política Crise 15/08/2026 08:21 Débora Bergamasco e Priscila Yazbek, da CNN cnnbrasil.com.br

A crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos expôs racha no governo Lula. Enquanto a ala política defende resposta dura a Trump para ganhar votos, a equipe econômica teme prejuízos comerciais.

A crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos expôs divergências dentro do governo Lula sobre qual seria a resposta adequada à gestão de Donald Trump.

De um lado, o Palácio do Planalto e o alto escalão da diplomacia, representado por Celso Amorim e Mauro Vieira, defendem que Lula suba o tom com o governo Trump, apostando no discurso de defesa da soberania nacional, que pode render dividendos para a campanha petista. De outro, a ala econômica, formada por integrantes do MDIC e da Fazenda, além de diplomatas de perfil mais tradicional, defendem uma postura mais contida para evitar uma escalada que afete interesses econômicos e de Estado.

  • O governo Lula está dividido sobre como responder a Trump.
  • A ala política quer endurecer o discurso para ganhar votos.
  • A equipe econômica teme prejuízos comerciais com uma briga maior.
  • A Lei da Reciprocidade foi acionada como resposta, mas pode levar meses.
  • Diplomatas criticam a postura dura por considerá-la eleitoreira.

As eleições presidenciais são o fator desencadeador dessa divisão. A ala mais política avalia que a crise entre Brasil e Estados Unidos pode favorecer Lula ao reforçar junto à base de esquerda o discurso de que o imperialismo americano prejudica os brasileiros. Já integrantes da área econômica e diplomatas mais tradicionalistas temem que a escalada deteriore as relações econômicas e tenha efeitos prejudiciais duradouros sobre a relação comercial entre os dois países.

O acionamento da Lei da Reciprocidade é o episódio mais recente a expor as divergências. Os defensores de uma postura mais enérgica contra os Estados Unidos apoiam a medida por considerá-la uma resposta do governo Lula a Trump. Ainda que o procedimento seja extenso e não signifique necessariamente que haverá retaliação, a avaliação desse grupo é que o gesto tem um importante peso político ao mostrar que o governo está reagindo em defesa da soberania nacional.

Além dos dividendos eleitorais colhidos pelo discurso de defesa da soberania, a ala mais próxima ao Planalto avalia que a reação mais dura às medidas de Trump reforçam o posicionamento sustentado pelo presidente Lula desde o seu primeiro mandato, de que a política externa deve ser ativa e altiva e que o país não deve se submeter a imposições de potências estrangeiras, como os Estados Unidos.

Já integrantes da Fazenda e do MDIC, assim como diplomatas mais tradicionalistas, avaliam que a decisão pode aprofundar a crise entre Brasil e Estados Unidos. Também temem que uma eventual imposição de tarifas retaliatórias pelo Brasil seja um "tiro no pé". "Em uma canetada, Trump pode dobrar as tarifas", afirmou um diplomata à CNN.

Neste sábado (15), as novas tarifas de 25% impostas por Trump completam um mês. Dentro da ala da diplomacia mais próxima a Lula, há incômodo com o que fontes classificam como uma postura excessivamente cautelosa do ministro Márcio Elias Rosa, do MDIC, que, mesmo após conversas com o governo Trump, não conseguiu reverter as medidas.

Fontes da ala mais política do governo avaliam que a pasta vinha resistindo a uma reação mais contundente e retardando a adoção de novos instrumentos contra Washington. Há críticas também sobre a condução das conversas com as autoridades americanas.

Diante desse desconforto, um interlocutor que acompanhou de perto as discussões relata que diplomatas apresentaram nesta quinta-feira a Lula a proposta de acionar a Lei da Reciprocidade e defenderam a adoção da medida.

"Convenceram Lula a soltar a bomba", afirmou a fonte.

Mudanças de tom na diplomacia

Dentro do Itamaraty também há visões críticas sobre a resposta mais enérgica ao governo Trump.

As recentes negativas de vistos a integrantes do governo Trump e as declarações do Itamaraty em defesa da soberania nacional têm sido vistas por alguns diplomatas como sinais de politização da política externa brasileira.

Diplomatas de alto escalão, mais próximos ao presidente Lula, por outro lado, defendem a postura mais dura sob o argumento de que medidas consideradas sem precedentes adotadas pelos Estados Unidos exigem uma resposta à altura.

Se anteriormente a diplomacia brasileira buscava responder de maneira mais pragmática, evitando entrar abertamente em disputas políticas, a postura mais ativa adotada agora causa estranhamento entre alguns diplomatas.

Nesta semana, Celso Amorim e Mauro Vieira se manifestaram em artigos e discursos nos quais fizeram referências à família Bolsonaro e acusaram os Estados Unidos de se aliar a "golpistas".

Diplomatas ouvidos pela CNN afirmam que a atual postura não é nada pragmática e demonstra um nível de hostilidade inédito do Brasil em relação ao governo americano. Na avaliação de alguns deles, tanto o governo quanto o Itamaraty vêm elevando deliberadamente o discurso de defesa da soberania, com vistas às eleições.