Fidel Castro completa 100 anos: um líder que ainda divide opiniões

Política Fidel 13/08/2026 12:03 João Victor Dummar, AFP, Agência Brasil opovo.com.br

Nascido em 1926, Fidel Castro liderou a Revolução Cubana e governou o país por quase 50 anos. Sua história é marcada por avanços sociais e críticas à falta de democracia. Entenda o legado do líder que transformou Cuba e influenciou a América Latina.

Fidel Alejandro Castro Ruz nasceu em 13 de agosto de 1926, em Birán, Cuba. Hoje ele completaria 100 anos de nascimento, e, em novembro, chegará a uma década desde a morte. O líder revolucionário que marcou o nome como um dos mais controversos da história da América Latina do século XX e influencia até hoje discursos políticos, dos entusiastas aos detratores.

A figura de Fidel Castro é envolvida em contradição histórica entre o símbolo de libertação anticolonial e a imagem de um ditador autoritário. Ele é lembrado e amado por uns e odiado por outros, a depender do prisma de ideologia.

  • Fidel Castro liderou a Revolução Cubana em 1959 e governou o país por quase 50 anos.
  • Sua gestão trouxe avanços como saúde e educação gratuitas para todos.
  • Por outro lado, o regime foi marcado pela falta de democracia e repressão a opositores.
  • Cuba enfrenta hoje uma grave crise econômica, com escassez de alimentos e apagões.
  • O embargo dos Estados Unidos, que dura desde 1962, agrava a situação do país.

Um líder que divide opiniões

Para Anita Leocádia Prestes, historiadora e militante política, Fidel foi a "mais importante liderança revolucionária da segunda metade do século XX e da década e meia, do seguinte". Em entrevista ao O POVO, ela contou sobre seu papel de estar à frente da primeira revolução socialista vitoriosa na América Latina, e do êxito que teve a pequena ilha de Cuba sobre seu comando.

Para os defensores, Castro é lembrado como o líder anti-imperialista latino que enfrentou a imposição dos Estados Unidos sobre o restante da América. O impasse com Washington teve muitos impactos. Cuba resistiu a invasão, a várias tentativas de assassinatos de Fidel, além do bloqueio econômico presente até os dias de hoje.

"Realmente o êxito que teve uma pequena ilha, ali pertinho dos Estados Unidos, com bloqueio desde que houve a revolução em 59, né, que tem bloqueio. Então, realmente foi um grande feito", disse Anita, filha dos militantes comunistas Luís Carlos Prestes e Olga Benário Prestes.

O governo de Fidel em Cuba

Durante o período de governo (1959-2008), inicialmente como primeiro-ministro e depois como presidente, a saúde foi universalizada com a criação de um sistema de saúde pública. A educação também foi fortalecida, com erradicação do analfabetismo. O impacto foi tão grande que a medicina se tornou um dos itens de exportação da ilha, como no Brasil, por meio do programa Mais Médicos, alvo de críticas da direita.

"Acabou com a mortalidade infantil, garantiu escola e bom nível de educação para toda a população. Quer dizer, foram muitas conquistas sociais importantes", completou Anita.

Entre as décadas de 1970 e 1980, Fidel enviou tropas cubanas para Angola e Moçambique para auxiliar na luta pela descolonização africana e na derrota do regime do apartheid da África do Sul.

Já para aqueles que se dizem contra Fidel Castro, ele é lembrado como um líder autoritário que proibiu partidos de oposição, decretou o fim da imprensa livre, perseguiu dissidentes e minorias e causou um colapso econômico. Rodrigo Santaella, doutor em ciência política e professor da Universidade Federal do Ceará, falou sobre "figura complexa" do guerrilheiro Fidel em entrevista ao O POVO.

"Ao mesmo tempo em que Fidel Castro foi um grande libertador, um grande revolucionário, uma figura muito importante para história do século XX, ele também liderou um regime muito fechado, de partido único, com pouca liberdade de expressão, em um contexto, é claro, de bloqueio econômico profundo e pressão absurda dos Estados Unidos", comentou. O professor cita problemas políticos em relação à falta de democracia, pluralidade e liberdade durante período. Mas aponta o contexto com os Estados Unidos como impulsionador da tomada de "escolhas difíceis".

Brasil e Cuba

O Brasil teve uma relação de idas e vindas com Cuba. No início, teve uma boa relação, mas, durante a ditadura militar, veio o rompimento de relações. Mais tarde, retornou a cooperação e depois rompeu mais uma vez. Hoje, com o governo Lula, retorna ao bom relacionamento.

A figura de Fidel ainda aparece nos discursos políticos brasileiros, tanto na esquerda quanto na direita. Segundo o professor, isso se deve ao símbolo que ele representa. Para a esquerda, é associado à ideia "de soberania, de coragem, de força para enfrentar os desafios e as potências econômicas, força para enfrentar o capital" e do anti-imperialismo. Para a direita com significado de "ditadura e violência".

A Cuba de hoje

Cuba hoje é muito diferente do que foi com Fidel. Os cubanos se perguntam o que resta das promessas da revolução socialista que ele liderou durante quase meio século e se seus sucessores estão à altura do desafio. O Partido Comunista de Cuba, o único da ilha, dedicou a semana a homenagear o falecido líder revolucionário com exposições, shows e conferências.

Mas o aniversário de 13 de agosto chega em meio a uma das piores crises de que se tem memória na ilha de 9,4 milhões de habitantes, submetida a forte pressão de Washington e afetada por uma grave escassez de alimentos e água, além de apagões crônicos. Assim como a palavra centenário ganhou notoriedade nos últimos meses, o termo blecaute também foi bastante pronunciado, seja nas ruas de Havana, seja em outras regiões do país. No início de agosto, por exemplo, os cubanos enfrentaram dois apagões nacionais em menos de 24 horas.

Embargo e crise energética

A crise energética é explicada pela capacidade limitada de produção elétrica em um sistema obsoleto e à pressão dos Estados Unidos, que dificultam a importação de petróleo e derivados. O país consegue produzir apenas um terço da necessidade nacional de petróleo, segundo a União Petrolífera de Cuba (Cupet), a maior empresa petrolífera da ilha. A energia que falta ao povo cubano também freia o desenvolvimento econômico de inúmeras atividades. Estimativas apontam que a economia deve registrar queda de 6,5% em 2026.

A situação é tão grave que especialistas em direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) condenaram a pressão americana e instaram a comunidade internacional a atuar rapidamente para evitar uma "Gaza silenciosa" em Cuba, em referência à grave situação humanitária vivida pela população na Palestina. O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, chama o bloqueio americano de "genocídio político".

Embargo dos EUA

A pressão dos Estados Unidos é um endurecimento do embargo econômico iniciado em 1962, após o agravamento das relações entre Washington e Havana, marcado pela nacionalização de empresas americanas, pela falta de acordo sobre compensações e pela aproximação de Cuba revolucionária com a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Pior momento do regime

A pressão atual faz com que o sistema de saúde na ilha, reconhecido internacionalmente por ser universal e gratuito, esteja à beira do colapso. Para alguns cubanos, é o pior momento já vivido pelo país. Além da questão econômica, o presidente americano, Donald Trump, já sugeriu que pode deflagrar uma ação militar contra Cuba.

O olhar cubano

Antes de colocar uma imagem de Fidel na janela de sua casa em Havana, o cubano Leonel Suárez a beija. Este eletricista de 54 anos, que há mais de uma década coleciona lembranças da revolução em um pequeno bar em sua casa, chama Castro de "mestre". E diz que, se estivesse vivo hoje, enfrentaria a crise "com muita estratégia (...) dando duro por seu povo". Muito orgulhoso de sua coleção, não vende as fotografias. No entanto, a crise econômica atingiu o país com tanta força que, quando um turista lhe ofereceu 100 dólares por uma imagem de seu ídolo comunista, sentiu que tinha poucas alternativas. "É preciso viver", diz.

"Fidel já não está aqui"

Para muitos cubanos, as dificuldades atuais refletem a ausência do homem que comandou Cuba durante quase meio século e morreu há uma década. "Fidel já não está aqui e nem todo mundo tem a capacidade que Fidel tinha", afirma Rogelio Valdivia, funileiro e pintor de geladeiras que mantém uma oficina em Havana Velha. No ano de seu centenário, encontrar uma imagem de Fidel Castro nas ruas de Cuba é cada vez mais difícil, e não apenas porque uma lei aprovada após sua morte proibiu a construção de monumentos em sua homenagem ou o uso de seu nome para batizar instituições públicas. Os grandes painéis com o rosto dele desapareceram pouco a pouco, vítimas do tempo e da deterioração.

Em sua oficina, entre paredes rachadas e ferramentas de trabalho, Valdivia ergueu uma espécie de santuário dedicado ao líder revolucionário. "Nasci na revolução e, por meio dela, consegui encontrar meu caminho", diz este autodeclarado "fidelista" de 54 anos. Moradores da ilha se lembram de Castro como o homem que conduziu Cuba por diversas crises: invasões apoiadas pelos Estados Unidos, o embargo, tentativas de assassinato e as duras privações provocadas pelo colapso da União Soviética, principal aliada e benfeitora do país.

Muitos dos que apoiaram Castro estão hoje entre os mais atingidos pela crise. Uma delas é Ángela Gutiérrez, de 86 anos, que afirma estar "decepcionada" com os rumos de Cuba. "Por que cortam tanto a luz Estão acabando" com a vida das pessoas, reclama, depois de percorrer várias barracas de alimentos e vegetais sem conseguir comprar nada devido aos preços elevados.

"Responsável pelo desastre"

Gutiérrez pertence à geração que cresceu sob a liderança de Castro e se beneficiou do acesso gratuito à saúde e à educação. Hoje, considera que essas conquistas mal sobrevivem. Para outros, os problemas de Cuba não remetem à ausência física de Castro, mas ao legado que deixou. Manuel Cuesta, historiador de 63 anos e opositor político, lembra que, durante sua juventude, via Fidel como "o redentor" que havia transformado Cuba no país que aspirava ser, mas essa imagem "foi se deteriorando com o tempo", à medida que a realidade da vida na ilha se distanciava das promessas da revolução. Hoje, acredita que a deterioração das condições de vida levou muitos cubanos a ver Fidel Castro como o "responsável original por este desastre nacional".

Em uma Cuba onde "seguir Fidel é como uma religião", ser opositor foi durante anos "uma condenação absoluta ao ostracismo", afirma o dissidente. Hassan Pérez, historiador, ex-dirigente estudantil e colaborador próximo de Castro, reconhece que o centenário chega "nas condições mais complexas que se poderia imaginar". O pacto social construído pela revolução, afirma, "se deteriorou" nos últimos anos. Durante décadas, Cuba ofereceu proteção social em troca de uma rígida disciplina política. Muitos cubanos se perguntam agora se esse acordo continua vigente.

Ainda assim, o afeto por Castro persiste entre parte dos cubanos, mesmo enquanto a vida cotidiana se deteriora rapidamente. Mildred Barreto, auxiliar de limpeza de 66 anos, continua chamando-o de "nosso comandante". Mas admite que a vida na Cuba de hoje é uma luta constante. "A gente passa por muitas dificuldades", diz. "Com nosso comandante, não."

Fidel e a revolução

Entre os eventos deste 13 de agosto está um seminário internacional sobre o legado de Fidel e o futuro de Cuba. A personalidade que viria a ser o comandante em chefe da Revolução nasceu em Birán, um vilarejo rural na província de Holguín, no Leste da ilha. Hoje, a fazenda onde nasceram os irmãos Ramón, Fidel e Raúl faz parte de um conjunto histórico.

Um dos fatos marcantes da trajetória do então líder oposicionista foi o ataque ao Quartel Moncada, em 26 de julho de 1953, na cidade de Santiago de Cuba. Liderados por Fidel, revolucionários tentaram derrubar o governo de Fulgencio Batista. A ação foi frustrada, e Fidel acabou sendo capturado. Ao ser julgado, em 16 de outubro daquele ano, Fidel fez o histórico discurso A História me Absolverá. O guerrilheiro foi condenado a 15 anos de prisão, mas anistiado pouco menos de dois anos depois.

Ainda em 1955, Fidel foi para o exílio no México, país onde conheceu o argentino Ernesto "Che" Guevara, que anos depois estaria ao lado dele na Revolução Cubana. No México, organizou o Movimento 26 de Julho e de lá partiu para Cuba no iate Granma, desembarcando em 2 de dezembro de 1956 com mais de 80 expedicionários, com o objetivo de tomar o poder. Logo depois da chegada, o grupo de revolucionários foi atacado pelas forças de Fulgencio Batista. Os sobreviventes do Exército Rebelde se refugiaram nas cordilheiras de Sierra Maestra e, dali, conduziram a guerrilha até o triunfo da Revolução em 1º de janeiro de 1959.

Décadas no poder

Fidel ficou quase 50 anos no poder. Ainda nos primeiros anos implementou a nacionalização de empresas e a reforma agrária. Ao longo do regime, o líder do Partido Comunista adotou reformas que ampliaram o acesso à saúde, moradia e permitiram a alfabetização em massa da população. Passou para o mundo a imagem de um líder sempre de uniforme militar, barba e charuto. Mas essa imagem recebeu uma correção com o tempo, conforme destacou o escritor colombiano Gabriel García Márquez, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura (1982): "Deixou de fumar para ter autoridade moral para combater o tabagismo".

No contexto da Guerra Fria, Fidel foi um dos principais aliados e beneficiados pela relação com a URSS. Por outro lado, foi um incômodo vizinho dos Estados Unidos, onde se exilaram muitos dos cubanos contrários a Fidel. Foi também inspirador e aliado do ex-presidente venezuelano Hugo Chávez, grande desafeto americano, morto em 2013. Ao lado de avanços sociais, Fidel atraiu críticas de dissidentes e organizações internacionais, que denunciavam práticas antidemocráticas, regime de partido único, censura, perseguição a opositores e violações de direitos humanos.

Repressão

A organização internacional de direitos humanos Human Rights Watch (HRW) reconhece que o governo de Fidel desenvolveu na ilha caribenha "importantes avanços" em questões sociais, direitos econômicos, educação, cultura e saúde. Mas a organização é vocal ao afirmar que o regime foi marcado pela repressão "de praticamente todas as formas de dissenso". "Milhares de cubanos foram encarcerados sob condições deploráveis, milhares de pessoas foram perseguidas e intimidadas, e gerações inteiras tiveram suas liberdades políticas básicas negadas", escreveu a HRW em comunicado publicado no dia seguinte à morte de Fidel Castro.

Para a organização, o embargo americano serviu para "justificar abusos do regime". "Durante décadas, Fidel Castro foi o principal beneficiário de uma política de isolamento profundamente equivocada dos EUA, que lhe permitiu se apresentar como vítima e, ao fazê-lo, desencorajar outros governos de repudiar suas práticas repressivas", disse à época o chileno José Miguel Vivanco, então diretor para as Américas da HRW. Outra organização não governamental, a Anistia Internacional, também reconheceu no dia da morte que houve avanços sociais em Cuba, mas afirmou que o estado da liberdade de expressão na ilha, "onde ativistas continuam a ser presos e perseguidos por se manifestarem contra o governo, é o legado mais sombrio de Fidel Castro".

A instituição afirmou que testemunhou "centenas de histórias de 'prisioneiros de consciência' pessoas detidas pelo governo simplesmente por exercerem pacificamente seus direitos à liberdade de expressão, associação e reunião". A Anistia Internacional lembrou ainda que, após tomar o poder, "Castro organizou julgamentos de membros do governo anterior, que resultaram em centenas de execuções sumárias".

Transição e renúncia

Em 31 de julho de 2006, dias antes de completar 80 anos de idade e 47 no poder, Fidel Castro se licenciou da Presidência por questões de saúde. Ele sofria de complicações no intestino e precisava passar por uma cirurgia. "Dias e noites de trabalho contínuo, praticamente sem dormir, fizeram com que a minha saúde, que tem resistido a todos os testes, se submetesse a um estresse extremo, e se quebrasse. Isto me provocou uma crise intestinal aguda com sangramento sustentado, que me obrigou a enfrentar uma complicada intervenção cirúrgica", disse em comunicado dias após uma viagem à Argentina.

A previsão inicial era de permanecer "várias semanas em repouso". Em 19 de fevereiro de 2008, Fidel renunciou definitivamente à Presidência. "Não me despeço de vocês. Só desejo combater como soldado das ideias", escreveu. Fidel delegou para o irmão e companheiro de revolução, Raúl Castro, os postos mais altos da cúpula do regime: primeiro-secretário do Comitê Central do Partido Comunista, comandante em chefe das Forças Armadas Revolucionárias e presidente do Conselho de Estado e do Governo da República. Raúl foi presidente até abril de 2018, sucedido pelo atual presidente Miguel Díaz-Canel.

Fidel Castro morreu na noite de 25 de novembro de 2016, já madrugada de 26 aqui no Brasil, aos 90 anos. O luto oficial demorou nove dias, com despedida do público em Havana e uma carreata com as cinzas até Santiago de Cuba. Em Miami, cidade americana que concentra cubanos exilados, os oposicionistas foram às ruas comemorar a morte de Fidel, a quem chamavam de ditador.

Legado

A professora de história Adriane Aparecida Vidal Costa, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), classifica o legado de Fidel como "um dos temas mais polarizados e controversos da historiografia latino-americana". Ela explicou que, de um lado, há historiadores que focam em questões autoritárias de Fidel Castro no que diz respeito à democracia e aos direitos humanos, que colocam no centro do debate fatores como a instituição do regime de partido único desde 1965, o controle estatal da imprensa, a perseguição e prisão de dissidentes, a repressão a homossexuais nas décadas de 1960 e 1970, "posteriormente revista pelo governo cubano".

A pesquisadora contrapõe que outra parte da historiografia se atém à soberania nacional frente aos Estados Unidos, às conquistas sociais, com indicadores comparáveis aos de países desenvolvidos, à redução de desigualdades históricas. Ela acrescenta um modelo de "democracia participativa", via organizações de massa, como os sindicatos e assembleias de bairro, "considerada por essa vertente uma forma alternativa de legitimidade popular, distinta do modelo liberal-representativo".

A professora Adriane Costa aponta que os avanços sociais são vistos como maiores acertos da Revolução Cubana, incluindo "indicadores de mortalidade infantil e expectativa de vida destacados por organismos como a Organização Mundial da Saúde". Por outro lado, são sinalizados erros como concentração de poder político e ausência de alternância democrática por décadas. Além disso, cita, houve dependência do subsídio soviético até 1991 e problemas crônicos de produtividade e abastecimento. Ela acrescenta que o processo migratório massivo é interpretado como sintoma de insatisfação interna da população.

A docente da UFMG considera que o embargo americano é uma resposta dos EUA à nacionalização de empresas sem compensação considerada adequada e outros fatores, como o alinhamento à URSS e apoio a movimentos revolucionários em países latino-americanos. "Foi muito mais uma retaliação do que propriamente resultado das escolhas de Fidel Castro", diz. A acadêmica considera que a situação de crise na ilha caribenha é reflexo de elementos como o bloqueio econômico, agravado durante o governo Trump, e do colapso de parceiros, como a URSS e, mais recentemente, a Venezuela. "O modelo institucional herdado de Fidel criou as condições estruturais de vulnerabilidade, como baixa diversificação econômica, dependência externa [URSS] e ausência de reformas econômicas mais profundas durante o 'Período Especial' dos anos 1990 [crise iniciada com o fim da URSS]", elenca. Adriane Costa lista ainda a pandemia de covid-19, que teve impacto severo no turismo, principal fonte da economia cubana.

Parte da história

O professor de história Norberto Osvaldo Ferreras, da Universidade Federal Fluminense, acredita que é impossível dissociar Fidel Castro da história de Cuba no século 20. "Podemos dizer que Cuba se divide em duas grandes figuras, José Martí, o herói da independência, e Fidel, o herói da emancipação definitiva." Líder nacionalista, José Martí morreu em 1895, durante a luta pela independência de Cuba, sete anos antes de o país se tornar formalmente independente. O especialista da UFF compara o atrelamento de Fidel ao país à importância de Nelson Mandela (1918-2013) para a África do Sul. "São figuras que marcaram uma transição de um modelo político a outro, que foram política, militar e socialmente ativas, com fortíssimas presenças internacionais", disse o argentino à Agência Brasil.

Ele atribui palavras-chave ao legado de Castro: latino-americanista, anti-imperialista e anticapitalista. Norberto Ferreras classifica de "complicada" a análise do legado sob o ponto de vista de democracia. "Cuba nunca foi uma democracia representativa eleitoral", diz. Para ele, a revolução socialista "recolocou os termos da democracia liberal burguesa e estabeleceu novos parâmetros de representatividade". "A eleição de presidente se dá pela via não direta", apresenta. Segundo o docente, Fidel aumentou a representatividade em uma "sociedade que estava fechada em um regime autoritário apoiado pelos Estados Unidos". Fulgencio Batista exerceu a Presidência de Cuba de 1940 a 1944, após ser eleito, no entanto, voltou ao poder em 1952, por meio de um golpe de Estado, governando como ditador até 1º de janeiro de 1959. O professor compartilha da ideia de que a existência de um partido único é fator complicador de Cuba.

Influência internacional

O acadêmico da UFF destaca que o ex-presidente cubano teve enorme influência no restante da América Latina, principalmente nas décadas de 1960 e 1970. "Uma influência direta nos processos revolucionários, como motor, financiador e também refúgio de muitos militantes de esquerda, revolucionários", descreve. Personalidades brasileiras viveram em Cuba enquanto o Brasil era submetido à ditadura militar (1964-1985). "Fidel tem uma importância decisiva na trajetória que tiveram os movimentos revolucionários e de esquerda na América Latina", complementa. Ele observa que, depois da década de 1980, "muitos dos antigos aliados e admiradores de Fidel passaram a se tornar críticos do sistema político cubano".

O professor cita como exemplo movimentos políticos de esquerda europeus, que perderam força nos seus países, partidos moderados na América Latina, o Partido Revolucionário Institucional (PRI) do México, o radicalismo na Argentina e o socialismo chileno. "A virada à direita na América Latina esvaziou o apoio também", pontua. Questionado sobre qual será o legado de Fidel Castro no próximo horizonte de 100 anos, Norberto Ferreras pondera que figuras políticas estão sempre vinculadas a uma realidade específica. "A presença de Fidel vai permanecer por um longo tempo em Cuba. É claro que este legado vai se transformar ao longo do tempo", prevê. Ele contextualiza que o mundo passa por um processo de reformulação das instituições liberais democráticas e de mudança da relação entre a América Latina e os demais países, com os Estados Unidos e a China disputando influência. Dessa forma, prossegue ele, "é difícil poder ver a influência de Fidel Castro crescendo ao longo do tempo". "Hoje é muito mais uma figura que fica restrita a um determinado período histórico, com uma grande influência no seu momento."

O olhar da história

O "fidelismo" ainda deixa um legado de identidade nacional e soberania no país, que é lembrando por muitos em Cuba e na América Latina. "Fidel tem uma importância simbólica gigantesca pro conjunto da América Latina como esse símbolo de algo que que demonstra a possibilidade não só da resistência, mas da transformação radical da situação a partir da própria iniciativa, a partir da própria vontade política e organização coletiva", concluiu Rodrigo Santaella. Como ele mesmo disse quando se defendeu em tribunal, ao ser preso pelo assalto ao Quartel Moncada, em 1953: "A história me absolverá". Ela de fato fez