O plano de governo da chapa Lula-Alckmin para um eventual novo mandato tem 84 páginas e 13 eixos. O documento destaca a soberania nacional, amplia o papel do Estado na economia e faz promessas para o agronegócio, como o fortalecimento do seguro rural. No entanto, o texto não explica de onde virão os recursos para financiar as propostas.
A chapa Lula-Alckmin apresentou à Justiça Eleitoral seu programa de governo para um possível próximo mandato, caso seja reeleita. São 84 páginas e 13 grandes eixos que permitem entender não apenas as propostas da campanha, mas a visão de Brasil que o atual presidente pretende levar para um eventual novo mandato.
Uma palavra ajuda a resumir o documento: soberania. Ela aparece repetidamente associada à economia, energia, tecnologia, produção de alimentos, relações internacionais e defesa dos interesses nacionais. Num momento de tensão nas relações internacionais, especialmente com os Estados Unidos de Donald Trump, não é uma escolha por acaso.
- O plano de governo tem 84 páginas e 13 eixos principais.
- A palavra-chave do documento é soberania, ligada a várias áreas.
- O programa promete mais recursos para o Plano Safra e juros menores para o agro.
- A proposta inclui a criação de um fundo para catástrofes climáticas no campo.
- O texto não explica de onde virá o dinheiro para as promessas.
Defender a soberania brasileira é necessário. Nenhum país pode aceitar interferências externas sobre suas instituições ou decisões internas. Mas a soberania não pode ser apenas uma bandeira política, ela precisa também existir na economia.
A questão é como pagar a conta
O programa tenta combinar uma presença forte do Estado com responsabilidade fiscal. Defende investimentos públicos, política industrial, programas sociais, desenvolvimento tecnológico e maior capacidade do governo de induzir o crescimento.
Ao mesmo tempo, fala em controle das despesas, qualidade do gasto público e compromisso fiscal. É exatamente aí que começa a discussão econômica mais importante.
O Brasil convive com uma dívida pública elevada e um custo financeiro pesado. Portanto, não basta dizer onde o Estado pretende investir. É preciso explicar de onde virão os recursos.
Se houver aumento permanente de despesas sem receitas ou economia correspondentes, a consequência pode aparecer justamente onde mais machuca a economia: dívida, impostos e juros. E juros elevados atingem principalmente quem precisa financiar produção e investimento.
O agro ganhou espaço
Para o setor rural, o documento traz pontos importantes. O programa reconhece expressamente a importância do agronegócio para o PIB e para a balança comercial brasileira.
Propõe ampliar recursos do Plano Safra, buscar juros mais compatíveis com a rentabilidade da atividade, diversificar fontes privadas de financiamento e ampliar o acesso ao mercado de capitais.
Também aparecem propostas para irrigação, agricultura de precisão, recuperação de pastagens, integração lavoura-pecuária-floresta, conectividade, Embrapa, fertilizantes e biocombustíveis.
Um ponto merece atenção especial: o seguro rural.
O programa propõe fortalecer o sistema e criar um instrumento para enfrentar perdas sistêmicas provocadas por catástrofes e grandes quebras de safra.
É uma discussão necessária. O produtor brasileiro não pode continuar dependendo de renegociações de dívida toda vez que uma seca, enchente ou outro evento climático destrói sua renda.
Mas existem perguntas sem resposta
Ao mesmo tempo, o programa mantém compromissos com reforma agrária, agricultura familiar, políticas ambientais, territórios indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
São questões legítimas dentro de um programa de governo, mas que precisam vir acompanhadas de algo indispensável para quem produz: segurança jurídica.
O produtor precisa saber quais serão as regras sobre propriedade, questões fundiárias, licenciamento, rastreabilidade e exigências ambientais.
Da mesma maneira, prometer crédito rural com juros compatíveis com a rentabilidade parece ótimo. Mas é preciso responder: qual será o custo desse subsídio Quem terá acesso E de onde virá o dinheiro
Programa é compromisso, não cheque em branco
É positivo que uma candidatura apresente seu projeto antes da eleição. Isso permite que a sociedade compare propostas em vez de discutir apenas nomes, partidos e ideologias.
O programa Lula-Alckmin apresenta uma visão relativamente clara: Estado mais presente como indutor do desenvolvimento, política industrial, proteção social, transição ambiental e defesa da soberania nacional.
Agora vem a parte mais importante: transformar intenção em números. Quanto custa De onde virá o dinheiro Qual será a trajetória da dívida Como reduzir juros Como aumentar investimentos sem elevar ainda mais a carga sobre quem produz
Para o campo, as perguntas são igualmente objetivas: haverá crédito em condições economicamente sustentáveis O seguro rural finalmente terá recursos permanentes Haverá segurança jurídica E as exigências ambientais serão construídas com o produtor ou simplesmente impostas a ele
Estamos entrando numa eleição decisiva. O eleitor não deveria escolher apenas entre esquerda e direita, Lula ou seus adversários.
Deveria escolher entre projetos de país. E todo candidato que pretende governar o Brasil pelos próximos quatro anos precisa mostrar não apenas o que deseja fazer, mas principalmente como pretende fazer e quem vai pagar a conta.

Agência Brasil


