Crianças de Gaza retornam às aulas após três anos de guerra

Mundo Gaza 21/09/2026 15:24 Nidal al-Mughrabi e Haseeb Alwazeer (Reuters) agenciabrasil.ebc.com.br

Milhares de alunos voltam às salas de aula na Faixa de Gaza, utilizando tendas e prédios danificados devido à destruição causada pelo conflito. O retorno marca um alívio após período de ensino remoto e escassez de materiais.

Milhares de crianças na Faixa de Gaza voltaram às aulas presenciais no sábado (20), marcando o primeiro retorno regular em quase três anos. Os estudantes estão sendo acomodados em estruturas escolares que foram danificadas pelos bombardeios ou em improvisações com tendas e barracas. O ambiente reflete o estado de emergência em que se encontra a região.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) aponta que 98% das escolas do território sofriram destruição parcial ou total durante o longo período de combates. As autoridades educativas locais estimam que cerca de 660 mil alunos tiveram seu direito à educação presencial negado durante esse intervalo, precisando recorrer a métodos alternativos.

Impactos profundos no sistema educativo

Segundo Ibrahim Ramadan, diretor de Educação em Khan Younis Oriental, o conflito teve um custo humano elevado para a classe estudantil. Foram registrados cerca de 22 mil óbitos de alunos, além de mais de 770 profissionais da educação mortos, número que inclui 532 professores. Esta reabertura é vista como um passo delicado, mas necessário, para a reconstrução da sociedade.

Para resumir a situação:

  • 98% das escolas em Gaza foram destruídas ou danificadas durante a guerra.
  • Cerca de 660 mil alunos ficaram privados do ensino presencial por três anos.
  • 22 mil estudantes e 532 professores perderam a vida no conflito.
  • Aulas estão sendo realizadas em tendas, colchões e escolas temporárias.
  • O comércio de material escolar registrou aumento de preços devido a restrições.

Moayed Abu Mustafa, um dos alunos em Khan Younis, expressou sua emoção ao comentar que a última vez que frequentou a escola foi há três anos. Para ele, o início do novo ano letivo representa um momento de alegria e esperança, mesmo diante das adversidades. Ele destacou sua vontade de aprender, independentemente das condições precárias da estrutura de ensino.

Mustafa relatou que está determinado a continuar seus estudos, mesmo precisando se sentar no chão de uma barraca sem ventilação adequada. Ele mencionou a falta de recursos básicos, como calçados próprios, cadernos e canetas, além do luto pelos amigos que não sobreviveram ao conflito. Apesar das privações, a resiliência dos jovens é notável.

Apesar de tudo isso, vamos aprender, vamos aprender mesmo que seja em uma barraca, disse o estudante.

Essa determinação é compartilhada por outras alunas, como Samar Abu Salmi, de 15 anos, que vive em deslocamento com sua família em uma barraca. Ela também retornou às aulas, contrastando a nova realidade com o passado recente em que a educação ocorria apenas através de celulares, sem o contato direto com os professores. Para Samar, o retorno é uma continuação da busca por seu futuro educacional.

Ela explicou que sua família enfrentava dificuldades para acessar materiais escolares devido às restrições econômicas e logísticas do território. A falta de cadernos, canetas e outros itens básicos se tornou uma barreira, mas não uma impossibilidade total de frequência às aulas. A adaptabilidade das famílias tem sido essencial para a sobrevivência da rotina escolar.

Samar recordou os tempos anteriores à guerra, quando o acesso a produtos do dia a dia era mais simples e barato. Ela mencionou que, em tempos de normalidade, roupas, passeios e materiais de estudo eram itens de fácil compra. Agora, a escassez e o alto custo transformaram a rotina familiar e a disponibilidade de recursos para a educação.

Apesar do cenário devastado, o Ministério da Educação de Gaza, com o apoio de organizações internacionais e locais, garantiu a continuidade do ano letivo 2026-2027. Foram criadas dezenas de estruturas temporárias utilizando lonas, chapas de metal, madeira e barracas para acolher os estudantes. A logística tem sido um desafios constante para manter o ensino em andamento.

A qualidade das instalações varia drasticamente. Algumas escolas foram erguidas em solos arenosos, enquanto outras dispõem apenas de colchões e uma lousa por sala de aula, forçando os alunos a se amontoarem. Há também estabelecimentos que precisam coabitar com dezenas de famílias que estão em situação de deslocamento forçado, misturando a função educacional com o abrigo humanitário.

Yamen Abu Samra, de 14 anos, frequentou uma dessas novas estruturas. Ele a mudança de comportamento dos estudantes ao chegarem à escola. Antes, o ato de ir à escola era sinônimo de felicidade e rotina segura. Agora, a chegada ao local de estudos é marcada pelo medo constante de violência.

O jovem relatou que a sensação de insegurança permeia o ambiente escolar. Ele expressou o temor de serem atingidos por balas perdidas, foguetes ou ataques direcionados, mesmo com a presença de estruturas de ensino improvisadas. Para ele, sentar-se em uma barraca exposta ao sol e ao calor é apenas mais uma das provações do cotidiano.

Logística e restrições de importação

Estimativas indicam que pelo menos 540 mil alunos frequentarão aulas presenciais neste ano. O ensino ocorre em escolas próprias, centros de aprendizado temporários e pontos de apoio educacional, com coordenação do Unicef. Para aqueles que não podem se deslocar ou que deixaram o território durante o conflito, a educação remota permanece ativa.

Um dos principais obstáculos é a situação de segurança e controle territorial. As forças de Israel mantêm o controle de mais de 60% da Faixa de Gaza. Embora um cessar-fogo tenha sido acordado no ano anterior para interromper os combates mais intensos, o conflito não chegou ao fim definitivo, gerando instabilidade contínua na região.

Os números de vítimas do ataque israelense contra Gaza, iniciado após os acontecimentos de outubro de 2023, são alarmantes. As autoridades palestinas declararam que mais de 73 mil pessoas perderam a vida no território. O estopim do conflito atual foi o incidente em que combatentes ligados ao Hamas mataram cerca de 1,2 mil pessoas no sul de Israel.

A escassez de insumos afetou diretamente a capacidade de aprendizado. Khaled Aliyan, um comerciantes de artigos de papelaria de 30 anos, relatou que as restrições de importação impostas por Israel elevaram significativamente os preços. Um caderno que antes custava 3 shekels (aproximadamente 1 dólar) passou a custar 15 shekels, impactando o poder de compra das famílias.

Além do custo, a disponibilidade de produtos é limitada. Toda a categoria de materiais escolares tornou-se cara e difícil de encontrar, o que força as escolas a improvisar ainda mais. A administração pública e as ONGs precisam lidar com a falta de recursos materiais para tentar oferecer um mínimo condições de estudo.

A Cogat, agência militar israelense responsável pelo acesso a Gaza, não respondeu aos pedidos de esclarecimento sobre as razões das restrições ao abastecimento e sobre os impactos dos ataques contra instalações educacionais. A posição oficial de Israel tem sido de acusar o Hamas de utilizar escolas para fins militares, uma alegação que é veementemente negada pelo grupo palestino.