Coalizão americana contra cartéis avança sem Brasil e México

Mundo Narcotráfico 15/08/2026 06:17 DW opovo.com.br

Com entrada da Colômbia, aliança impulsionada pelos EUA reúne agora 19 países. México e Brasil seguem fora. Especialistas questionam eficácia de bloco sem atores centrais do narcotráfico regional.

A proposta é ambiciosa: coordenar forças de segurança, inteligência e operações para enfrentar os grandes cartéis do narcotráfico. Com esse objetivo, os Estados Unidos impulsionam uma nova aliança regional, a Coalizão contra os Cartéis das Américas (A3C, na sigla em inglês), que realizou nesta semana uma reunião no Panamá. Na ocasião, foi anunciada a entrada da Colômbia no grupo. Apoiador do presidente dos EUA, Donald Trump, o recém-empossado presidente colombiano Abelardo de la Espriella autorizou operações militares conjuntas com o objetivo de desmantelar redes terroristas, disse o secretário de Defesa americano Pete Hegseth na ocasião. Agora, a Coalizão reúne 19 países: Estados Unidos, Argentina, Bahamas, Belize, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Guiana, Honduras, Jamaica, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Trinidad e Tobago.

Duas das maiores potências da região, porém, seguem fora da iniciativa: México e Brasil. A criação da Coalizão e as estratégias de Trump para a segurança da região se tornaram um dos pontos centrais dos atritos da Casa Branca com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Washington classificou grupos criminosos como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho como organizações terroristas, rótulo rejeitado pelo Planalto, que vê no movimento uma tentativa de maior intervenção nos assuntos domésticos. Na quarta-feira (12/08), Hegseth indicou que os EUA planejam ataques por terra contra criminosos na América Latina. "Será o mesmo efeito em terra. Por isso, estamos trabalhando com Equador, Colômbia e outros parceiros para levar a luta às organizações designadas como terroristas em terra", afirmou. "Onde quer que trafiquem drogas ou ameacem o povo americano ou nossos parceiros, essas organizações são um alvo, assim como a Al-Qaeda."

Os limites da cooperação

Para o peruano Pedro Yaranga, professor de ciência política e especialista em segurança, o desafio é transformar acordos diplomáticos em operações conjuntas de real impacto. Segundo ele, a coalizão precisará avançar na criação de bases de dados compartilhadas e centros de inteligência capazes de trocar informações em tempo real e rastrear fluxos financeiros, criptomoedas e cadeias logísticas ligadas aos cartéis. A iniciativa, avalia, está diante de uma escolha decisiva: tornar-se um marco de integração operacional ou limitar-se a um fórum de declarações políticas. Na prática, porém, a implementação desses objetivos enfrenta obstáculos relevantes. Yaranga lembra que os países participantes apresentam diferentes níveis de compromisso político, estabilidade institucional e disponibilidade de recursos. Além disso, sistemas judiciais frágeis, corrupção e infiltração do crime organizado em instituições estatais podem comprometer o compartilhamento de informações sensíveis.

Para Juanita Goebertus, diretora da Divisão das Américas da Human Rights Watch, a cooperação regional é essencial para enfrentar o crime organizado, responsável por grande parte da violência na América Latina. Ela alerta, contudo, que a estratégia não terá sucesso se depender de inteligência precária, concentrar-se apenas nos elos mais fracos das organizações criminosas ou recorrer ao uso ilegal da força. Segundo Goebertus, também é indispensável um processo consistente de fortalecimento da Justiça.

México, peça central fora da aliança

A ausência do México levanta dúvidas sobre o alcance da coalizão. "As redes criminosas mexicanas são atores centrais do narcotráfico regional, especialmente nas rotas para os Estados Unidos", afirma Victoria Dittmar, pesquisadora da InSight Crime na Cidade do México. Ela ressalta que esses grupos atuam em todo o continente como importantes compradores de drogas e frequentemente terceirizam atividades como transporte, logística, produção e fornecimento. Embora organizações sul-americanas busquem ampliar sua presença em mercados da Europa e da Ásia, Dittmar observa que o acesso ao mercado americano continua dependendo, em grande medida, da cooperação com redes mexicanas. "Se um dos principais objetivos da coalizão é reduzir o fluxo de drogas para os Estados Unidos, é difícil imaginar uma estratégia eficaz que não inclua algum tipo de colaboração com o México", afirma.

Brasil propõe rota alternativa

O Brasil é a outra ausência de peso. O PCC hoje tem participação ativa nas rotas estratégicas que ligam áreas produtoras de cocaína nos Andes aos portos do sul do país, especialmente o de Santos, de onde a droga segue para a África e a Europa. "É impossível falar de uma estratégia hemisférica eficaz contra o crime organizado sem a participação de México e Brasil", diz Dittmar. Contrário a rotular grupos criminosos como terroristas, o Brasil formalizou em maio um novo acordo de cooperação para enfrentar o crime organizado transnacional com os EUA. A iniciativa prevê troca de inteligência em tempo real, sem abrir espaço para uma maior intervenção americana em questões domésticas. O tema tem apelo eleitoral para o pleito de outubro e vem sendo tratado com cautela pelo governo Lula, que defende endurecer penas para integrantes de facções, com a criação do tipo penal de "organização criminosa qualificada". "Não aceitamos ser tratados como moleques. Não aceitamos ser tratados como se fôssemos uma republiqueta", afirmou Lula em maio, após Trump classificar facções brasileiras como organizações terroristas. A medida veio após uma visita à Casa Branca do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL).

O fator político

Em contrapartida, a adesão da Colômbia amplia o peso operacional da coalizão. Para Yaranga, a presença de um dos maiores produtores mundiais de cocaína, ao lado do Peru, confere à A3C "a legitimidade geográfica e a capacidade estratégica necessárias para atacar de forma contundente a oferta de drogas e a infraestrutura financeira dos cartéis e de outras organizações criminosas da América do Sul". Além de seus objetivos operacionais, porém, a iniciativa também tem uma dimensão política. Goebertus questiona a estratégia adotada por Washington. "O governo Trump parece mais interessado em alianças político-eleitorais e em ações com potencial de repercussão nas redes sociais do que em uma estratégia efetiva para reduzir o controle territorial e populacional exercido por esses grupos criminosos", afirma. Nesse contexto, Dittmar diz ter "dúvidas sobre o alcance real da coalizão". Na avaliação da pesquisadora, a composição do bloco não reflete necessariamente a participação dos países mais relevantes para desmontar as redes criminosas transnacionais. "Sua composição parece responder mais a considerações políticas e à formação de um bloco de países alinhados a Washington", conclui.

  • México e Brasil, potências regionais, não fazem parte da coalizão, o que pode limitar sua eficácia.
  • A Colômbia, um dos maiores produtores de cocaína do mundo, entrou para o grupo.
  • Os EUA planejam ataques terrestres contra criminosos na América Latina, segundo o secretário de Defesa.
  • O Brasil prefere um acordo de cooperação com os EUA sem rotular grupos criminosos como terroristas.
  • Especialistas alertam que a iniciativa pode ser apenas um fórum político se não houver integração real de inteligência e operações.