Trump quer reduzir vacinas obrigatórias para crianças nos EUA

Mundo Vacinas 12/08/2026 06:32 DW - O Povo opovo.com.br

Sem provas científicas, o presidente dos Estados Unidos assinou uma ordem que pede a suspensão de vacinas rotineiras contra covid-19, gripe e outras doenças. Especialistas em saúde criticam a medida dentro e fora do país.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou na segunda-feira (11/08) uma ordem executiva para alterar as recomendações sobre a imunização infantil. O novo passo da ofensiva do governo do republicano contra as políticas de vacinação estabelecidas sugere reduzir o número de vacinas previstas para crianças, reformular algumas delas e espaçar aplicações.

Com milhões de crianças retornando às salas de aula após as férias de verão no Hemisfério Norte, esta época do ano costuma ser movimentada nos postos de vacinação, aumentando o potencial impacto imediato do decreto. A Casa Branca usou como justificativa uma suposta relação entre vacinas e autismo, apesar da ausência de evidências científicas que sustentem a afirmação.

  • A ordem executiva de Trump sugere cortar vacinas contra covid-19, gripe, hepatites A e B e meningite bacteriana do calendário infantil.
  • A justificativa do governo para a medida é uma suposta ligação entre vacinas e autismo, algo que a ciência já refutou.
  • Especialistas em saúde alertam que a mudança pode aumentar os casos de doenças evitáveis, como sarampo e coqueluche.
  • A decisão final sobre vacinar ou não as crianças ficará com os pais, em consulta com médicos.
  • A Organização Mundial da Saúde (OMS) rebateu a medida, afirmando que as vacinas são seguras e baseadas em ciência.

Menos vacinas, mais visitas ao médico

De uma lista anterior de 18 doenças combatidas por vacinas de rotina, foram cortadas a da covid-19, do rotavírus, da gripe, das hepatites A e B e da meningite bacteriana. A nova recomendação é que caiba aos pais, em consulta com médicos ou farmacêuticos, a decisão de imunizar ou não os filhos.

A medida, diz a Casa Branca, maximiza o poder de escolha das famílias. Além disso, o texto sugere que a vacina contra a hepatite B seja administrada apenas durante a adolescência. Permanece a recomendação universal para a aplicação de vacinas contra sarampo, caxumba, rubéola, difteria, tétano, coqueluche, poliomielite, Haemophilus influenzae tipo B, doença pneumocócica, papilomavírus humano e varicela. A lista contida no decreto é mais ampla para crianças em grupos de risco.

Entretanto, a ordem executiva também recomenda que as vacinas contra sarampo, rubéola e caxumba sejam aplicadas separadamente, em vez de em uma única injeção. Seriam necessárias diferentes visitas das famílias aos postos de vacinação, o que tende a enfraquecer a cobertura na população e aumenta o risco da contração de doenças entre doses.

Durante teleconferência com jornalistas, o presidente da Academia Americana de Pediatria (AAP, na sigla em inglês), Andrew Racine, afirmou que seriam necessários mais de dez anos para desenvolver estas vacinas separadas e aprová-las nos EUA. Outros especialistas apontaram ainda que não há embasamento científico para justificar a mudança.

"Recomendamos continuar administrando às crianças uma vacina cuja segurança é respaldada por décadas de dados", acrescentou Aaron M. Milstone, também da AAP.

Recomendações conflitantes

Conhecido pela sua posição contra as vacinas, o secretário de Saúde de Trump, Robert F. Kennedy Jr., também alterou o calendário de vacinação pediátrica. Foram ainda reduzidos os recursos destinados ao desenvolvimento de novas vacinas. Ainda não está claro quais mudanças poderão ocorrer a nível estadual, e é provável que a ordem executiva seja contestada na Justiça.

Por ora, o governo afirma que não haverá alteração na disponibilidade de imunizantes nem na cobertura dos planos de saúde. Citado pela CNN, Racine disse ver como único resultado da medida de Trump o aumento da "incerteza, medo e confusão onde não precisa haver nada disso".

A Organização Mundial da Saúde (OMS), ligada às Nações Unidas, também respondeu. Um porta-voz lembrou que as recomendações de vacinação se baseiam em "mais de 60 anos de pesquisa pela OMS, autoridades nacionais e grupos de especialistas independentes."

Os calendários de aplicações de cada vacina, por exemplo, foram determinados por extensos estudos conduzidos nos períodos de maior vulnerabilidade às doenças que elas combatem. "O que sai da OMS é baseado na ciência, afirmou Tarik Jaarevi, porta-voz da organização. "Nós esperamos que todos os países usem esta melhor evidência científica que nós temos."

Em 2024, um relatório dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, a principal agência de saúde pública dos Estados Unidos, estimou que a vacinação rotineira de crianças nascidas entre 1993 e 2023 preveniu 508 milhões de ocorrências de doenças. Teriam sido evitadas assim 32 milhões de hospitalizações, mais de 1 milhão de mortes e um custo de 2,7 trilhões de dólares para toda a sociedade americana.