Jogo do tigrinho e apostas: 9 milhões de brasileiros apostam todo mês

Economia Apostas 25/09/2026 14:13 João Sorima Neto, Extra extra.globo.com

O mercado de apostas no Brasil cresce em números: são 9,25 milhões de apostadores mensais e R$ 88 bilhões movimentados no primeiro semestre de 2026, mas os depósitos caíram 12,4% em relação ao ano anterior.

As empresas de apostas, conhecidas popularmente como "bets", continuam em pleno crescimento no Brasil. Tanto o número de empresas reguladas quanto o dinheiro gerado pelo setor aumentam. Até o primeiro semestre deste ano, o país contava com 84 empresas licenciadas para oferecer apostas legalmente. Essas 84 empresas gerenciam 193 marcas diferentes ativas no mercado. Além disso, a média mensal de apostadores que voltam todo mês para jogar ficou em torno de 9,25 milhões de pessoas. No entanto, o número total de pessoas habilitadas a fazer apostas é bem maior.

Os números oficiais mostram que, até setembro deste ano, havia 31,82 milhões de documentos de identidade (CPFs) únicos com status ativo no cadastro do governo. Desses, 30,4 milhões de pessoas realizaram ao menos uma aposta no primeiro semestre de 2026. Esses dados foram consolidados pela consultoria brmkt.co, baseada em informações oficiais do Ministério da Fazenda.

  • Mais de 9 milhões de apostadores: Em média, 9,25 milhões de pessoas apostam todo mês no país.
  • Movimentação de R$ 88 bilhões: Os depósitos somaram esse valor no 1º semestre de 2026.
  • Queda nos depósitos: Houve uma redução de 12,4% em relação aos R$ 100,99 bilhões do mesmo período em 2025.
  • Regulação e impostos: O setor gera bilhões em impostos e emprega milhares de pessoas diretamente.
  • Jovens na mira: 71,90% dos apostadores têm 40 anos ou menos, exigindo medidas de proteção.

Comparação com 2025 e receitas do setor

Para entender a evolução, é preciso olhar para os seis primeiros meses do ano passado. Naquela época, eram 77 operadoras e 159 marcas. Agora, os números subiram para 84 empresas e 193 marcas, de acordo com o Sistema de Gestão de Apostas (Sigap), plataforma oficial do Ministério da Fazenda. O crescimento mostra que, apesar da regulação mais rígida, o mercado organizado se expandiu.

Essas empresas tiveram uma receita bruta de R$ 20,28 bilhões nos primeiros seis meses de 2026. Esse valor representa uma alta de 6,2% em relação aos R$ 19,09 bilhões registrados no mesmo período do ano anterior. A receita bruta total de todo o ano de 2025 foi de R$ 40,69 bilhões. É importante entender o termo: a "receita bruta" (chamada de GGR) é o dinheiro que fica com a casa de apostas após o pagamento de todos os prêmios aos jogadores que acertaram as apostas.

Para onde vai o dinheiro arrecadado

Pela legislação brasileira, uma parte desse dinheiro tem destino certo. Do volume arrecadado no primeiro semestre de 2026, R$ 2,49 bilhões foram destinados obrigatoriamente a políticas públicas. O governo divide esse valor em setores estratégicos: R$ 870,15 milhões foram para o Esporte; R$ 677,52 milhões para o Turismo; R$ 329,08 milhões para a Segurança Pública; e R$ 493,84 milhões combinados para Seguridade Social e Educação.

A história da regulamentação das bets

As apostas online foram autorizadas inicialmente em 2018, durante o governo de Michel Temer. No entanto, elas atuaram sem nenhuma regulação específica até 2023. Foi nesse ano que uma nova lei foi aprovada sobre o tema. O mercado regulado em si só começou a valer em 2025. Isso ocorreu após a regulamentação feita pelo governo, a análise do Ministério da Fazenda sobre as empresas autorizadas e o pagamento de uma taxa (outorga) de R$ 30 milhões por empresa.

Hoje, todas as plataformas registradas no Brasil operam sob o domínio obrigatório .bet.br. A regulamentação brasileira de "cota fixa" abrange tanto as apostas esportivas quanto os jogos on-line (como cassinos virtuais e jogos de slot/crash, incluindo o famoso "tigrinho"). No sistema de cota fixa, o apostador sabe exatamente quanto pode ganhar no momento em que faz a aposta, o que traz mais transparência.

Isso significa que, na prática, as principais operadoras licenciadas podem operar no chamado "modelo integrado". Elas oferecem tanto apostas esportivas quanto cassino on-line na mesma plataforma. Nos dados oficiais consolidados pelo governo, não há separação do faturamento por tipo de jogo, o que dificulta saber exatamente quanto se ganha com futebol versus quanto com o tigrinho.

Outorga e o mercado ilegal

O governo federal arrecadou R$ 2,5 bilhões em taxas de outorga fixa das empresas de apostas esportivas desde o início da regulamentação até meados de 2026. Ainda não há definição sobre o que vai acontecer com esse dinheiro: se ele ficará com o governo para investir em serviços públicos ou será devolvido às bets. É uma questão que ainda está em análise.

O valor da outorga por empresa é de R$ 30 milhões e a licença vale por cinco anos. Apesar da regulamentação, estima-se que o mercado ilegal (apostadores fora das regras, sem segurança jurídica) ainda represente entre 38% e 44% do consumo total de apostas no Brasil. Esse percentual é menor que a estimativa anterior, que era de 41% a 51%, indicando um movimento de migração para o mercado legal.

Perfil dos apostadores: maioria jovem e masculina

Os apostadores formam um público predominantemente jovem. De acordo com os dados, 71,90% têm 40 anos ou menos. A divisão por faixa etária é a seguinte: 29,03% têm entre 31 e 40 anos; 21,95% têm de 25 a 30 anos; e 20,92% têm até 24 anos. Em termos de gênero, 68,30% dos apostadores são homens e 31,70% são mulheres.

Para operar legalmente no Brasil, as empresas são obrigadas a adotar uma série de medidas de proteção para evitar o jogo compulsivo e a fraude. Entre essas medidas, as empresas:

  • exigem biometria facial para comprovar a identidade;
  • bloqueiam automaticamente menores de 18 anos;
  • proíbem o uso de cartão de crédito (aceitando apenas Pix ou transferências vinculadas ao mesmo CPF);
  • bloqueiam diariamente no sistema beneficiários de programas sociais (como Bolsa Família e BPC), cadastrados no Desenrola (renegociação de dívidas) ou FIES (financiamento estudantil).

Queda nos depósitos e grandes grupos no país

Os brasileiros fizeram depósitos de R$ 88,48 bilhões no 1º semestre de 2026. Esse é o dinheiro que sai das contas bancárias e vai para as plataformas para que o usuário possa fazer apostas ou dar palpites. O valor representa uma queda de 12,4% se comparado aos R$ 100,99 bilhões depositados no mesmo período de 2025. A redução pode ser atribuída ao maior rigor nas verificações e à conscientização sobre os riscos do jogo.

Ao todo, no ano passado, os depósitos chegaram a R$ 220 bilhões. Cerca de R$ 183 bilhões foram pagos aos apostadores em prêmios e bônus. Isso significa que cerca de R$ 37 bilhões se transformaram em perdas dos apostadores, convertidas em receita bruta para as empresas. É uma margem de lucro que sustenta o negócio.

Entre as maiores empresas que atuam no país, o grupo NSX, que nasceu no Recife, expandiu-se para São Paulo e detém marcas conhecidas como Betnacional, Mr. JackBet e PagBet. A empresa teve 56% de seu capital adquirido pela gigante irlandesa Flutter Entertainment (dona da Betfair) por R$ 3,8 bilhões, em um movimento que consolida o poderio internacional no setor.

O grupo americano de cassinos MGM Resorts e o Grupo Globo criaram uma joint venture (parceria), a BetMGM. Outra grande jogada foi feita pela Ana Gaming Brasil, dona das marcas 7K.Bet.br, Cassino.Bet.br e Vera.bet.br. A MagicBet777 foi comprada pela MeridianBet, que já opera em mais de 15 países. A Sortenabet Gaming Brasil, por sua vez, detém as marcas Sorte na Bet e Betou.

Empregos e arrecadação para o governo

O setor regulado de apostas gera mais de 10 mil empregos diretos e 5,5 mil indiretos no Brasil. Os postos de trabalho estão em áreas de tecnologia, compliance (conformidade com leis), jurídico e atendimento ao cliente. A criação de empregos é um dos argumentos do setor para sua legalização.

A arrecadação com tributos e licenças/outorgas em 2025 foi de R$ 7,9 bilhões. Entre janeiro e agosto de 2026, a arrecadação acumulada já atingiu R$ 9,9 bilhões. Este ano, a alíquota de tributos sobre as bets subiu de 12% para 13%. A expectativa é que essa taxa chegue a 15% em 2028, aumentando ainda mais a contribuição do setor para os cofres públicos.