O número de empresas em recuperação judicial cresceu 41,4% por causa dos juros elevados. Expertos ensinam como separar contas, planejar caixa e usar crédito com segurança para evitar o fechamento.
A onda de processos de recuperação judicial, que serve para reestruturar dívidas de empresas em apuros, atingiu fortemente os negócios de menor porte. De acordo com o levantamento Monitor RGF-BizDoc, o número de micro e pequenas empresas (MPEs) nessas condições saltou 41,4% em junho deste ano, comparado ao mesmo mês de 2025. Esse índice ficou próximo do dobro do crescimento geral das empresas médias e grandes, que foi de 21,2% no período.
O setor de comércio lidera essa estatística. No primeiro semestre, o avanço nos processos judiciais foi de 18,3% entre as microempresas e 11,2% nas pequenas, enquanto a taxa média para o restante do mercado foi de apenas 8%. A situação reflete a dificuldade real dos Donos de pequenos estabelecimentos em manter as contas em dia diante da conjuntura econômica atual.
Para ajudar o leitor a entender a gravidade e as saídas para essa crise financeira do pequeno comércio, veja os pontos principais a seguir:
- Dado chocante: Micro e pequenas empresas cresceram 41,4% em processos judiciais, quase dobrando a média do mercado.
- Causa principal: Juros altos e crédito caro pressionam o caixa, enquanto o consumidor compra menos por estar endividado.
- Fragilidade: Pequenos negócios têm menos patrimônio para dar em garantia e gestão menos técnica para prever crises.
- Exemplos reais: Pizzaria, reciclagem e empresa de segurança do trabalho viraram cases de sucesso após reestruturação.
- Saída encontrada: Separar contas pessoais, fazer diagnóstico financeiro e diversificar fontes de receita são as chaves.
O cenário de juros elevados afeta o caixa
Fundo de tudo isso está a taxa de juros elevada por muito tempo, o que torna os empréstimos mais caros e reduz o dinheiro disponível para girar o negócio. Somado a isso, há o efeito de uma retração no consumo, já que as famílias estão mais endividadas e compram menos. Esse cenário cria um ciclo vicioso: o empresário não vende, não paga os fornecedores e precisa recorrer a mais crédito para sobreviver momentaneamente.
Há dois agravantes específicos para as pequenas empresas. Primeiro, muitas delas são de gestão familiar, sem processos profissionais, o que dificulta prever e evitar crises. Segundo, no comércio, falta patrimônio próprio suficiente para oferecer em garantia ao credor. Isso torna os acordos de reestruturação mais frágeis e complicados, segundo especialistas do mercado financeiro.
A importância de agir antes do aperto fiscal
Para especialistas, o melhor caminho para o pequeno empreendedor é resolver os problemas antes de chegar à recuperação judicial. Claudio Damasceno, sócio da RGF Associados/BizDoc, alerta que, nesses segmentos menores, a chance do processo judicial resultar em falência total é muito mais alta do que em empresas maiores.
"Pequenas empresas têm um componente emocional grande, é o negócio do pai que contrata o filho, é amigo do fornecedor", explica Damasceno. Ele destaca que a falta de especialização em gestão de crise dificulta as decisões. Além disso, com patrimônio menor e marca menos forte, o empresário tem pouco a oferecer ao credor. Por isso, o ideal é evitar que o negócio precise dessa intervenção judicial.
O custo do crédito é uma das maiores dores de cabeça. Uma referência é o Pronampe, linha de crédito criada pelo governo em 2020. Ela usa recursos do Fundo Garantidor de Operações (FGO) para proteger o banco em caso de calote. Porém, o Pronampe nasceu quando a taxa Selic estava em 2% ao ano. Hoje, a Selic está em 14%, e a taxa do empréstimo é baseada nesse índice mais uma margem. Este ano, com o programa Novo Desenrola, as regras ganharam mais prazo e recursos, mas o custo continua alto.
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Pizzaria optou por reestruturação após dívidas
Maria Margarida Santos, dona de uma pizzaria há quase seis anos, precisou reestruturar o negócio após tomar um empréstimo para comprar equipamentos e se endividar demais. A situação chegou a um ponto crítico, onde o fluxo de caixa não cobria os salários.
"Cheguei a pensar em fechar as portas quando não conseguia pagar os funcionários e perdi fornecedores", lembra ela. Ao buscar ajuda, descobriu também uma multa da Receita Federal. Hoje, a empresa está há um ano reestruturando as dívidas e aguardando a renegociação com o Fisco. Sua meta é construir uma reserva de caixa de R$ 60 mil.
Margarida aprendeu lições valiosas nesse processo: "Passei a separar as contas. Aprendi a gerir o negócio. Corrigimos os preços e agora estou tendo um lucro na casa dos 22%", conta a empresária orgulhosa da recuperação.
Reestruturação foi fundamental para o negócio
Quintino, dono da MAMplast Recicláveis, percebeu em 2019 que sua empresa, com 21 anos no mercado, caminhava para o prejuízo. A solução foi dividir a organização em departamentos e criar indicadores para melhorar a gestão. Pouco depois, veio a pandemia.
Apesar de recorrer a crédito, a MAMplast continuou operando. O cenário atual é mais desafiador, mas o planejamento criado na reestruturação ajudou. "(A situação) Está pior, mas estou mais estruturado, e é por isso que estou vivo. Hoje mesmo tive a notícia de que mais dois clientes fecharam", afirma Quintino, mostrando como a estrutura interna protege contra instabilidades externas.
Sócias buscaram ajuda para estruturar empresa
O Grupo Florencio, focado em Saúde e Segurança do Trabalho, vivia da venda para um único grande cliente. Quando esse cliente saiu, a empresa quase parou. Foi quando as sócias Laureni e Laura Florencio, mãe e filha, decidiram mapear as dívidas e procurar o Sebrae.
Elas buscaram visibilidade nova para atrair outros clientes. O resultado foi transformador: o faturamento, que havia despencado de R$ 15 mil para apenas R$ 3 mil mensais, subiu para R$ 40 mil hoje. "A maior dificuldade que a gente enfrenta é saber se mostrar para o cliente. Temos que nos reinventar", diz Laura.
Pasos para sair do buraco financeiro
Empresas dão sinais de turbulência antes da crise séria. Ouvir especialistas como Rodrigo Soares (Sebrae), Simone Santolin e Claudio Damasceno ajuda a identificar esses sinais. A seguir, uma lista com os principais conselhos para evitar a falência:
- Negócios à parte: Separe as contas pessoais das da empresa. Definir um pró-labore fixo e não usar dinheiro emprestado como se fosse lucro evita confusões contábeis.
- Diagnóstico financeiro: Não apague incêndios sem saber a origem. Liste tudo o que se tem a receber, a pagar, dívidas e estoques. Sem números claros, não há decisão segura.
- Planejamento: Projete o fluxo de caixa dos próximos meses. Identifique onde o dinheiro está parando e crie um plano para renegociar prazos ou cortar gastos supérfluos.
- Fontes de receita: Não dependa de um só cliente ou tipo de crédito. Considere cooperativas, investidores anjos ou financiamentos coletivos para diversificar.
- Ajuda profissional: Avalie reestruturações judiciais ou extrajudiciais com contadores e advogados. Se não houver saída, o encerramento organizado também é uma opção para não ficar endividado.
- Atenção ao caixa: Distinga problemas momentâneos de estruturais. Projete entradas e saídas semanais, considerando atrasos comuns no pagamento de clientes.
- Custo do crédito: Com juros altos, compare o custo total de cada empréstimo. Verifique se trocar uma dívida cara por uma mais barata realmente vale a pena.
- Capital de giro: Usar crédito para girar o negócio é ok, mas não use para tampar buraco gerado por vendas perdidas. Isso só aumenta a divida.
- Atenção à margem: Calcule quanto sobra de cada venda após os custos. Esse valor precisa cobrir as despesas fixas. Se não estiver cobrindo, revise preços ou corte desperdícios sem afetar a qualidade.

Juros altos, crédito mais caro e consumo retraído afetam microempresas. Foto: Freepik





