Carros chineses barateiam preços de veículos novos e usados no Brasil

Economia Carros 19/07/2026 07:11 Caroline Nunes - Extra extra.globo.com

A entrada de carros chineses no mercado brasileiro está fazendo os preços de carros novos e usados caírem. Agora, o consumidor pode comprar um carro zero ou seminovo por valores mais baixos do que antes, principalmente os modelos que custam mais de R$ 100 mil.

O Brasil praticamente dobrou a importação de carros da China neste ano. De janeiro a junho, foram cerca de 140 mil carros chineses emplacados no país. Esses veículos são eletrificados, têm preços competitivos e prometem economia de combustível. Isso causou um efeito em cadeia nos preços de carros novos e usados. Na prática, o consumidor pode comprar um carro zero ou seminovo por valores mais baixos do que antes, principalmente os modelos acima de R$ 100 mil.

  • As montadoras tradicionais estão dando descontos e bônus na troca de carros usados para competir com os chineses.
  • A Toyota oferece bônus de até R$ 40 mil na troca de um usado para alguns modelos.
  • A Fiat reduziu o preço do Fastback Impetus Turbo de R$ 173.490 para R$ 134.990.
  • A BYD, marca chinesa, já vendeu 300 mil carros eletrificados no Brasil em quatro anos.
  • A chegada dos carros chineses está barateando também os carros usados e seminovos.

Para enfrentar a concorrência, as montadoras tradicionais estão reduzindo preços de carros novos com campanhas de descontos e bônus na troca de usados. O jornal Extra percorreu concessionárias no Rio e ouviu trabalhadores. Eles disseram que os descontos são uma reação ao avanço das marcas chinesas para manter a competitividade.

Descontos e bônus das montadoras

A Toyota oferece bônus de R$ 10 mil na troca de um usado na compra de alguns modelos, como o Yaris Cross XR. A bonificação pode chegar a R$ 40 mil para veículos como a Hilux Cabine Dupla SRX Plus AT. A montadora disse que a política faz parte da estratégia para oferecer condições competitivas aos clientes.

"A entrada de novos competidores, somada às transformações relacionadas à eletrificação, conectividade e digitalização, além de novas expectativas em relação à mobilidade, à experiência de compra e ao uso dos veículos, amplia as opções disponíveis e acelera a transformação ao longo de toda a cadeia de valor", afirmou a Toyota em nota.

Outras montadoras também adotaram medidas. A Honda oferece bônus de até R$ 15 mil na troca de um usado. A Volkswagen cortou cerca de R$ 10 mil no preço do T-Cross e iniciou o Feirão dos Feirões Volks Vale+. A Fiat, além das bonificações para alguns modelos, reduziu o valor do Fastback Impetus Turbo de R$ 173.490 para R$ 134.990.

A Stellantis, dona de marcas como Jeep e Peugeot, informou que essas condições especiais fazem parte das comemorações dos 50 anos da Fiat no Brasil. A empresa destacou que a definição de preços considera fatores como câmbio, custos de produção, logística e dinâmica do mercado, e afirmou que está sempre atenta às variações no cenário para seguir com o posicionamento adequado e competitivo. O jornal também procurou a Honda, mas não teve retorno.

Queda nos preços de carros usados e seminovos

Com a redução dos preços dos carros novos, os preços dos modelos seminovos e usados também caem. Geraldo Victorazzo, vice-presidente Comercial e de Marketing da Auto Avaliar, explica que o mercado de automóveis funciona em cadeia: se a referência do carro usado é o carro novo, quando o carro novo reduz o preço, naturalmente o usado também tem uma regressão mais forte.

Variedade de modelos

A estratégia das montadoras acontece em meio à grande oferta de modelos nacionais e importados. Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), foram emplacados 280.600 veículos importados no primeiro semestre deste ano, sendo quase a metade da China. A entidade aponta que, em apenas um ano, o volume de veículos chineses enviados ao Brasil dobrou, passando de 71 mil para 140.800 unidades.

Para o consumidor, os carros chineses se tornaram uma alternativa por causa dos preços mais atraentes, eletrificação, tecnologia embarcada e design moderno. A BYD, que já tem fábrica no Brasil, encerrou o primeiro semestre com 99.029 emplacamentos e alcançou, em junho, a marca de 300 mil carros eletrificados vendidos em quatro anos no país. Já a GWM informou que fechou o primeiro semestre com 35.218 unidades vendidas entre automóveis e comerciais leves.

"Hoje você tem um veículo chinês de maior porte competindo com um modelo menor fabricado no Brasil. Esses carros chegam mostrando suas qualidades e dizendo ao mercado: 'Eu também sou uma boa opção, tenho um preço extremamente competitivo'", diz Milad Neto, sócio e diretor-executivo da K.Lume Consultoria Automobilística.

Guerra de montadoras começou na Ásia

Todo esse movimento é impulsionado pela alta produção de veículos na China, um mercado com intensa competição entre as montadoras. A chamada "guerra de preços" chegou a preocupar o governo chinês, que interveio para evitar a concorrência predatória. Sem conseguir vender toda a produção no mercado interno, as empresas intensificaram a expansão para outros países, incluindo o Brasil.

Segundo um relatório do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), os veículos eletrificados já representam 15% das importações brasileiras da China.

O professor dos cursos automotivos da Fundação Getulio Vargas (FGV), Antônio Jorge Martins, explica que os preços mais competitivos são resultado da forte concorrência no mercado chinês e da verticalização da produção adotada por grande parte das montadoras, que fabricam internamente boa parte dos principais componentes dos veículos. Esse modelo amplia a margem para redução de preços, junto com os incentivos do governo chinês.

"Hoje há muitas fabricantes de veículos elétricos na China. Isso significa que as montadoras precisam vender fora do mercado chinês para manter a rentabilidade. Aos poucos, vemos um número cada vez maior de empresas asiáticas atuando em outros mercados justamente por essa necessidade de ampliar a lucratividade", explica.

Procurada, a Anfavea não quis comentar o assunto. A Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto) e a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) não responderam aos pedidos de comentários até o fechamento desta reportagem.