Pitty compara novo álbum sobre seus traumas a dois anos de terapia

Cultura Pitty 16/10/2026 14:02 Folhapress / Notícias ao Minuto noticiasaominuto.com.br São Paulo SP

Aos 49 anos, Pitty lança seu primeiro disco de músicas inéditas em sete anos, 'Pitty', um trabalho que ela define como 'dois anos de terapia condensados em 13 faixas'. O álbum aborda o luto do fim de seu casamento, a relação complicada com a mãe falecida e a reconstrução de sua identidade.

Pitty afirma que, aos 49 anos, finalmente realizou seu primeiro disco. A afirmação tem uma explicação específica: o álbum nasceu de uma acumulação de angústias e dores que exigiram ser expostas. O resultado é 'Pitty', um trabalho com 13 faixas que, segundo a própria cantora, resume 'dois anos de terapia' e já está disponível nas plataformas digitais.

O novo álbum traz à tona temas delicados, como a relação difícil com sua mãe, o luto de um relacionamento que terminou de forma amarga e até um maior apetite sexual. "Agora estou me colocando de forma vulnerável, visceral, porém plena e forte", afirma a artista. "Tem coisas que precisam ser ditas."

  • A cantora define o álbum como um processo terapêutico intensivo que durou dois anos.
  • O disco marca o retorno de Pitty às músicas inéditas após sete anos de pausa nos estúdios.
  • O trabalho aborda o fim do casamento com Daniel Weksler e a relação com a mãe.
  • Pitty busca unir o rock tradicional à pista de dança em um som mais pop.
  • A artista nega rótulos de 'transgressora', dizendo que apenas usa a arte para se comunicar.

Nascimento do álbum em meio à vulnerabilidade

A necessidade de desabafar foi tão forte que superou o medo. Entre janeiro e fevereiro, Pitty escreveu as letras de forma compulsiva, sozinha, sem a ajuda inicial de sua banda ou equipe. Ao tentar produzir as músicas por conta própria, percebeu que havia criado um álbum completo. "Eu precisava fazer, foi maior do que eu. Me vi diante do violão e da tecnologia que hoje ajuda quem quer se autoproduzir. Foi um 'faça você mesma'. Por isso, sinto essa coisa de primeiro disco", lembra.

Com as versões rascunhadas, Pitty procurou Rafael Ramos, seu produtor de confiança, para finalizar o projeto. Ela compara o momento à estreia de sua carreira, há 23 anos, com o disco 'Admirável Chip Novo', que escreveu sozinha no quarto. "Seis álbuns depois, ela reencontra a vontade de criar em anarquia, mas entendendo melhor quem é", destaca a reportagem.

Impactos de dois anos de mudanças pessoais

Cada música do novo disco está ligada a eventos dos últimos dois anos. Nesse período, Pitty realizou uma turnê celebrando os 20 anos de 'Admirável Chip Novo' e, o que mais impactou seu trabalho, anunciou o fim de seu casamento de 19 anos com o baterista Daniel Weksler, com quem tem uma filha. "Antes eu revisitava coisas guardadas porque escrevo muito. Dessa vez foi diferente", explica.

Na música 'Álbum de Casamento', a artista reflete sobre o que sobrou após o término. "Devolva minhas senhas, eu confiei em você / a minha autoestima não precisa devolver / eu já tomei de volta posse do que é meu", canta. No entanto, ela agradece ao relacionamento por ter gerado sua filha, a quem chama de sua 'alma favorita'. Outra faixa, 'Amiga', expõe os bastidores de uma amizade falsa, embora Pitty prefira não detalhar as referências pessoais: "Quebra a magia. Prefiro que as pessoas escutem".

Rapaport sobre a maternidade e a perda

A cantora abre mais o jogo ao falar da faixa 'Cuidada', a mais melancólica do disco. A letra revisita a relação com sua mãe, Laurita, que já faleceu. Pitty reclama de ter se sentido abandonada, de faltar conversas profundas e de receber poucos afetos físicos, como abraços. Ao final da música, a cantora revela que hoje entende que sua mãe também lhe faltou cuidado. "Essa letra é bem doída. Eu precisava falar sobre isso. Foram dois anos de terapia em dois meses", diz.

Evolução musical: do rock para a pista de dança

Pitty não lançava um álbum só de músicas novas desde 2019. Ela explica que a pausa foi necessária para se dedicar à direção de shows, função que já exerce na nova turnê, que estreia em São Paulo. O novo trabalho é considerado o mais pop da carreira. Em faixas como 'Pileque de Poeta' e 'Sobriedade Seletiva', as guitarras dividem espaço com melodias suaves e batidas marcantes, produzidas por Felipe Vassão, que já trabalhou com Pabllo Vittar e Junior Lima.

A mudança de estilo foi intencional. "Eu queria fazer um rock dançante. Fiquei nessa brisa de unir a roda de pogo à pista de dança e ver como isso se comporta", explica. O objetivo é convidar o público a "deixar o corpo se movimentar, bater cabeça, gritar, sussurrar". O disco abre com 'Sobremesa', uma analogia para uma relação baseada no desejo, e 'Armadura', onde ela diz ser mais fácil abrir as pernas do que o coração.

Pitty e a nova fase do rock brasileiro

Histórica rebelde da música nacional, Pitty observa as mudanças na cena atual. Nos anos 2000, ela fazia parte de uma onda de rock que, após um período de hiato, agora parece estar ressurgindo com novas bandas femininas. "Parece que estamos numa fase de fazer música incisiva, seja rock ou um blues mais visceral. Não importa o estilo. Nina Simone, Black Sabbath, Luiz Gonzaga, tudo isso é visceral", afirma.

A cantora, que começou cantando sobre política e preconceito com hits como 'Equalize' e 'Na Sua Estante', diz que sua fúria de outrora aparece de forma diferente no novo álbum. A rebelião está presente em 'Desobediente', que defende a ideia de que "desafiar é uma forma de ter voz". Sobre rótulos, Pitty é clara: "Essas palavras se tornaram clichês. Não há estereótipo aqui. Sou uma mulher usando arte para se comunicar. É isso."