Festival de cinema de Brasília enfrenta crise; artistas reagem

Cultura Crise 11/08/2026 08:11 Marcelo Brandão - Agência Brasil agenciabrasil.ebc.com.br

O evento está marcado para setembro, mas os organizadores foram avisados sobre a falta de verba. A governadora do Distrito Federal afirma que a programação está mantida.

O tradicional Festival de Brasília do Cinema Brasileiro está vivendo momentos de incerteza. Nesta segunda-feira, os diretores do evento foram informados pelos representantes do governo do Distrito Federal que a 59ª edição não seria realizada entre os dias 11 e 19 de setembro.

No entanto, ainda na noite desta segunda, a governadora do DF, Celina Leão, publicou em suas redes sociais a ordem para que a Secretaria de Economia providencie os recursos necessários para o festival. De acordo com ela, o evento está confirmado.

  • O festival é o mais antigo do país e teria recorde de inscrições em 2026.
  • Mais de 80 filmes foram selecionados para a mostra competitiva.
  • A governadora do DF mandou a Secretaria de Economia liberar verba para o evento.
  • Artistas e produtores criticaram a possível falta de recursos.
  • O festival é patrimônio imaterial do Distrito Federal desde 2007.

A edição de 2026 recebeu um número recorde de inscrições de filmes, com 1.928 obras disputando uma vaga. Mais de 80 filmes estão confirmados, com a participação de centenas de profissionais do audiovisual de todo o Brasil.

Em publicação nas redes sociais, o diretor artístico do festival, Eduardo Valente, chegou a lamentar o possível cancelamento. Ele pediu a união de todos os envolvidos com cinema para manter o evento.

"O que teremos para amanhã e depois Difícil dizer, mas, seguramente, nem essa edição nem o futuro deste evento será determinado só por quem estava aqui lutando para organizá-lo. Teremos que ver o quanto as associações em geral, o setor do cinema, o público do DF e até, por que não, outros festivais de cinema do país estarão dispostos a se juntar nessa briga", escreveu Valente.

Procurada pela Agência Brasil, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal não se manifestou sobre o assunto.

Tristeza e revolta

Tiago de Aragão, diretor no Centro-Oeste da Associação das Produtoras Independentes do Audiovisual Brasileiro (API), relacionou o possível cancelamento do festival à crise no GDF após o escândalo dos bilhões de reais em títulos podres do Banco Master comprados pelo Banco de Brasília (BRB).

"São dezenas de profissionais empregados que já estavam trabalhando sem receber; são produtoras e cineastas de todo o país que reservaram o lançamento dos seus filmes para Brasília. A imagem que fica é de um GDF que pode não honrar seus compromissos para sanar um rombo causado em uma história espúria que envolveu o BRB com o Banco Master e Vorcaro".

Para Tatiana Costa, presidente da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan), o que acontece no DF pode se espalhar para outros festivais do país.

"Só durante a ditadura o Festival de Brasília não foi realizado. E o que isso significa simbolicamente Para além das decisões financeiras, é uma decisão política do GDF. Isso nos preocupa imensamente, porque não ameaça apenas o festival de Brasília, e sim todos os festivais de cinema do Brasil".

Carina Bini é cineasta de Brasília. Na edição do ano passado, subiu ao palco do Cine Brasília com todo o elenco de seu filme "Mil Luas" para apresentá-lo ao público da cidade. Hoje, ela lamenta a possibilidade de um auditório vazio e uma tela apagada em setembro.

"O Festival de Brasília movimenta todo um mercado de trabalho, uma cadeia produtiva do audiovisual, traz pessoas para a cidade, ele é um evento que gera emprego, gera recurso para o Distrito Federal e é importante historicamente para o cinema brasileiro", destaca.

Festival histórico

O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro é o mais antigo do país e chega, em 2026, à marca de 59 edições. A mostra competitiva está marcada para ocorrer de 11 a 19 de setembro, no Cine Brasília.

O Festival nasceu em 1965 e, ao longo das décadas, consolidou-se como um espaço de debate sobre o audiovisual brasileiro. Desde 2007, é considerado patrimônio imaterial do Distrito Federal. Ao longo das décadas, só não foi realizado em dois anos durante a ditadura militar. Durante a pandemia, foi realizado de forma virtual.

Um diferencial em relação a outros festivais é que as obras selecionadas precisam ser inéditas e os vencedores recebem o Troféu Candango, em homenagem aos pioneiros que construíram a capital.