A erosão já removeu a faixa de areia que protegia as barracas no Pontão do Iguape, em Aquiraz. Os comerciantes estão preocupados e usam estruturas improvisadas para tentar conter o avanço das ondas, que já destruíram várias barracas.
No Pontão do Iguape, em Aquiraz, o avanço do mar mudou a paisagem e passou a interferir diretamente na rotina de quem trabalha e frequenta um dos principais pontos turísticos do município.
- O mar já avançou mais de 20 metros na praia do Iguape desde 2004, segundo o geógrafo Davis Pereira.
- Os comerciantes usam sacos de contenção e estruturas de madeira para tentar proteger as barracas, mas as ondas continuam destruindo.
- Entre 300 e 500 pessoas dependem das atividades do Pontão do Iguape para sobreviver.
- A erosão costeira atinge cerca de 48% da costa do Ceará, com 214 pontos críticos.
- O Iguape é considerado um dos núcleos de erosão do estado, exigindo intervenção imediata.
Nas últimas semanas, a faixa de areia que funcionava como proteção natural das barracas foi escavada pela ação das ondas, que agora chegam mais próximas das estruturas. De acordo com o fotógrafo e frequentador da região, Alisson Rocha, a alteração do relevo da praia também mudou o acesso ao mar e aumentou a preocupação com a segurança dos visitantes. "Hoje, as ondas estão quebrando exatamente encostadas ali na estrutura das barracas", relata.
Erosão já é crítica no Iguape
Conforme Alisson, algumas estruturas utilizadas para sustentar as barracas são fincadas na areia a cerca de três metros de profundidade, mas já não apresentam a mesma sustentação diante da retirada de areia provocada pelo mar.
A mudança também tem reflexos no movimento. Alisson afirma que parte dos frequentadores passou a demonstrar receio em relação às condições da área e prefere permanecer em barracas que ainda conservam a estrutura de acesso à praia: "Se você tem a notícia de que o local onde você costuma ir está deteriorado, ele está com uma falta, ele está sem estrutura, é notório que diminua o movimento na praia".
Pesquisa confirma núcleo de erosão
O impacto ocorre em uma área que já é conhecida pela pressão da erosão costeira. Em 2025, levantamento do Plano de Ações de Contingência para Processos de Erosão Costeira do Ceará (PCEC) apontou que o Estado tinha erosão em aproximadamente 48% da linha de costa.
O estudo analisou 533 trechos entre 2016 e 2024 e identificou 214 pontos em erosão crítica, quando a perda de sedimentos supera um metro por ano. Aquiraz aparece entre os municípios com pontos de erosão crítica, com seis áreas identificadas. O Iguape foi classificado como um dos "núcleos de erosão" do Estado, categoria que reúne áreas onde o processo é intenso e demanda intervenção imediata.
É nesse contexto que o geógrafo Davis Pereira de Paula, da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e professor do programa de pós-graduação em Geografia da instituição, avalia que o avanço observado atualmente não deve ser tratado como um episódio isolado: "Trata-se de um processo contínuo de erosão costeira que vem se agravando ao longo dos anos. Para se ter uma ideia, entre 2004 e 2026, essa praia já perdeu mais de 20 metros de faixa de areia."
Segundo o geógrafo, a erosão é um processo natural, influenciado pela ação das ondas e das marés, mas pode ser agravado pela intervenção humana. "Fatores como a ocupação desordenada da orla, a degradação dos sistemas dunares, o barramento de rios, que reduz a areia chegando no litoral e abastecendo nossas praias, as próprias obras e infraestruturas de proteção costeiras, feitas sem os devidos estudos, acabam acelerando essa perda de terras marinhas", detalha.
Estruturas de contenção improvisadas
Quem trabalha no Pontão tenta se adaptar ao avanço do mar com soluções improvisadas. Luiz Fernando Vieira da Silva, administra o Morgan Beach Açaiteria e ajuda a família na Barraca S.Fernando. Sobre a situação, ele conta que os barraqueiros passaram a utilizar sacos de contenção, conhecidos como bag-sacos, e estruturas de madeira para tentar reduzir a força das ondas: "Quando o mar vem, destrói tudo. Já perdemos várias barracas".
Segundo Luiz Fernando, as estruturas de madeira são colocadas a cerca de dois a três metros de profundidade e a estratégia é reforçada com bag-sacos, a fim de tentar impedir que a água avance sobre as barracas, no entanto o problema se repete.
Luiz afirma que seu pai é um dos pescadores e comerciantes mais antigos do Pontão e já perdeu cinco barracas ao longo dos anos. Há casos de outros barraqueiros que, segundo ele, chegaram a perder 12 estruturas. "Todo ano, eu venho mais preocupado, ainda mais quando a gente estuda o avanço da maré", diz.
O receio de investir em estruturas mais robustas também é consequência desse cenário. Os comerciantes evitam colocar grandes quantias em obras que podem ser destruídas novamente pelo mar. Segundo Luiz, a situação afeta entre 300 e 500 pessoas que têm sua renda relacionada às atividades do Pontão do Iguape.
Impacto nos negócios locais
Eronildo Araujo da Silva é dono de uma escola de surf da região. Ele afirma que as condições do mar muda ano após ano. Ele destaca que, apesar de as mudanças serem benéficas para o surf, elas prejudicam o negócio: "Atrapalha...a gente faz a escolinha recuar, porque fica muito próximo da faixa de areia. Fica tudo mais complicado".
Eronildo conta que já perdeu algumas das estruturas que construiu. "O mar sempre avança todos os anos. Minha primeira escolinha foi feita em 2019. Um ano depois, o mar derrubou. Construí outra, o mar avançou e derrubou. Construí outra, o mar avançou e derrubou. Então, isso, ano após ano, vem acontecendo", afirmou o professor.
Soluções e ações necessárias
O cenário observado atualmente no Pontão ocorre dentro de uma área que já havia sido apontada como prioritária para estudos e ações. Em 2025, a Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (Sema) solicitou ao Instituto de Ciências do Mar (Labomar-UFC) um estudo específico sobre as praias do Iguape, Icapuí e Jericoacoara, devido à concentração de pontos erosivos próximos de áreas urbanizadas.
O levantamento estadual explica que a erosão é um fenômeno natural relacionado à ação das ondas, das correntes marinhas e à elevação do nível do mar. O processo, contudo, pode ser intensificado por mudanças climáticas e intervenções humanas, como construções próximas à faixa de praia e retirada de vegetação.
O geógrafo Davis Pereira explica, porém, que a observação do avanço do mar em determinado período não permite concluir, sozinha, que a praia foi perdida de forma definitiva, logo seria necessário um acompanhamento específico e contínuo, de, pelo menos, um ano, do local, com uso de imagens de satélite, medições da faixa de areia e relatos dos moradores.
O comportamento da faixa de areia pode variar ao longo do ano e entre diferentes ciclos: "O mar passa por ciclos. Em alguns períodos do ano ou em ciclos de anos, ele pode avançar mais e depois a areia pode voltar e se acumular, fazendo a praia crescer novamente", complementa o geógrafo.
Enquanto aguardam medidas de maior alcance, os trabalhadores continuam tentando conter a água com as próprias estruturas. Luiz Fernando diz que, quando uma barraca é atingida, os comerciantes se organizam em mutirões para reconstruir o que foi perdido: "A gente já tá acostumado, mas precisamos trabalhar, então caiu, constrói de novo".

Moradores colocam sacos cheios de areia na tentativa de evitar destruição das barracas / Crédito: Daniel Filho/Reprodução/Divulgação


