Vítima de fogo cruzado entre PM e bandidos ainda tem bala alojada no rosto

O autônomo Paulo Sérgio da Silva, 37, trabalhava a duas quadras da avenida Paulista, na manhã do dia 15 de junho, sábado, quando saiu para comprar tinta.

No caminho para um depósito perto dali, a PM perseguia um carro suspeito.

Houve um intenso tiroteio. Silva foi vítima de três balas perdidas: uma atingiu o antebraço direito, outra, a lateral esquerda da barriga e a terceira está alojada no rosto, bem abaixo da orelha esquerda.

Só no final deste mês ele talvez saberá se, de fato, a bala poderá ser retirada.

Saí de manhãzinha da periferia de Mauá, rodei 35 km de moto até pertinho da avenida Paulista para um trabalho que me renderia R$ 50.

Era um serviço para um pessoal conhecido, então revolvi fazer um preço camarada. Voltei para casa no fim da noite, com fome, sem dinheiro, sujo de sangue e baleado em três lugares do corpo.

Carrego ainda uma bala alojada no meu rosto, abaixo da orelha esquerda, e uma dúvida: não sei se vão conseguir retirá-la um dia.

Vez ou outra, parece que a bala se mexe. A parte em que ela bateu, no antebraço direito, queima. A lateral da barriga do outro lado do corpo também queima. E muito.

Eram quase 9h de um sábado tranquilo, de céu azul, no dia 15 de junho, quando cheguei a um consultório odontológico, na alameda Ribeirão Preto, na Bela Vista.

Consertei as torneiras do consultório e saí para buscar tinta em um depósito que fica na avenida Brigadeiro Luís Antônio, a duas quadras de onde eu trabalhava.

Por volta das 9h50, comecei a subir a Ribeirão Preto, perto da alameda Joaquim Eugênio de Lima, quando um carro, um Space Fox preto, desceu em disparada.
A polícia vinha logo atrás.

Segundos depois, o assaltante fez o caminho inverso. A polícia continuava na cola.

Nessa perseguição de PM contra bandido, a vítima fui eu. Estava na frente deles quando as balas me atingiram. Duas de raspão. A terceira continua bem aqui, no meu rosto.

QUE SITUAÇÃO É ESSA?

Naquele instante, não dava para contar os tiros.

Sei que eram muitos. Foi tudo rápido demais.

Corri a mão nas costas, para ver se a bala tinha atravessado, quando percebi que muito sangue estava escorrendo pelo rosto.

Me lembro claramente de ter dito a um moço que passava de carro e me olhava assustado: “Acho que fui baleado”. Tinha sido mesmo!

Uma mulher se aproximou. Disse que era médica e falou para eu me deitar. Colocaram uma toalha no meu rosto, mas não parava de sair sangue. Deu muito medo.

Em menos de dez minutos, o resgate chegou. Eles foram rápidos e gentis. Pediram o telefone de algum conhecido, alguém da minha família.

Pensei: “Para quem eu ligo?” Eu mesmo disquei para o celular da minha mulher, Raquel, e passei para eles.

“Digam que eu sofri um acidente de moto, por favor”, foi o meu pedido. O que menos queria naquela hora era assustar a minha família.

Jamais imaginei que bem pertinho da avenida Paulista, uma das mais importantes da cidade e talvez até mesmo do país, pudesse acontecer uma coisa assim.

Mas hoje, em São Paulo, a gente fica esperto. Você sai e não sabe se vai voltar vivo para casa. É muito triste. Me pergunto: “Que situação é essa que a gente está vivendo?”.

Já fui assaltado três vezes, todas elas foram na periferia. Levaram duas motos, mas nada tinha sido tão assustador como foi na Paulista.

Quatro dias depois, voltei ao Hospital das Clínicas para o médico analisar se a bala poderia enfim ser retirada do meu rosto. Que nada.

Pediram para ficar atento e tomar cuidado com o ferimento. Vou ter que voltar ao hospital no final deste mês.

Enquanto isso, terei que conviver com essa situação. Já vieram me perguntar se sei de onde partiram os tiros. Agora, isso pouco importa.

Só quero ter saúde para voltar logo a ter uma vida normal, trabalhar e cuidar da minha família. Ficar em paz.

MEU MENINO

Geralmente, nos finais de semana, eu costumo levar o meu filho mais novo, o Rodrigo, de quatro anos, para trabalhar comigo. É um jeito de a gente ficar juntos por mais alguns momentos.

Naquele sábado de manhãzinha, pensei em ir de carro com o menino, mas não tinha dinheiro para colocar gasolina. Então, tive que pegar a moto e deixei o garoto dormindo em casa. Ainda bem.

Com certeza o Rodrigo estaria sobre os meu ombros naquela hora do tiroteio.

No sábado, o médico que me atendeu no HC disse: “Você nasceu de novo”. Quando penso naquelas palavras do doutor, prefiro acreditar em outra coisa: sorte mesmo teve o meu menino.

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