Versão de Elize que dá base a laudo é ‘inconsistente’, diz promotor

O promotor de Justiça José Carlos Cosenzo disse nesta terça-feira (21) que a versão apresentada por Elize Matsunaga durante a reconstituição da morte do empresário e ex-diretor executivo da Yoki Marcos Kitano Matsunaga é “absolutamente inconsistente”. O laudo da reprodução simulada do Instituto de Criminalística (IC) foi divulgado com exclusividade na tarde de terça. O advogado de Elize, Luciano Santoro, declarou que o documento é apenas mais um elemento de prova e preferiu não comentar contradições entre o laudo e parecer divulgado anteriormente pelo Instituto Médico-Legal (IML).

O laudo da reprodução simulada feito pelo IC em 6 de junho registrou que, segundo a versão de Elize, o tiro ocorreu a 1,94 metro de distância, que ela estava de frente para Marcos na hora do crime e que a vítima foi decapitada no dia seguinte. O exame necroscópico feito no cadáver pelo IML e divulgado em 14 de junho havia apontado que Marcos foi morto com um tiro à queima-roupa, disparado de cima para baixo e foi decapitado ainda vivo.

Elize, que é bacharel em direito, está presa pelo crime. Ela foi denunciada pelo promotor e aguarda a audiência de instrução na Justiça, na qual será decidido se ela irá a júri popular por homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver.

Marcos foi morto na noite de 19 de maio. Elize confessou ter atingido o empresário com um tiro e esquartejado o corpo com uma faca. O corpo de Marcos Matsunaga foi encontrado, em pedaços, às margens de uma estrada em Cotia, na Grande São Paulo. No início de junho, Elize confessou o crime à polícia.

O documento do IC é dividido em três partes: traz uma descrição do apartamento do casal, resultados de exames de DNA de amostras de sangue colhidas no local e uma sequência de imagens de Elize monstrando a reconstituição do crime

‘Direito de mentir’, diz promotor
O promotor, que afirmou na noite de terça ainda não ter recebido o laudo da reprodução simulada, ressaltou que ele foi feito apenas com base nas alegações da bacharel, como é previsto. Segundo ele, Elize tem direito garantido por lei de mentir para se defender e que a versão dela está em confronto com os laudos do IML.

Cosenzo disse que se interessou particulamente por duas fotos do laudo: a do momento em que Elize está de frente para a vítima e a que mostra, segundo a versão da ré, a forma como ela efetua o disparo. O promotor se disse intrigado. “Se o tiro foi à queima-roupa, como é que pode ser a dois metros? Segundo: se o tiro foi de cima para baixo, ela está de frente para Marcos, só se fosse uma bala bumerangue para ela fazer a curva e voltar”, afirmou.

O promotor lembrou que a versão de Elize que deu sustentação ao laudo é anterior ao resultado dos exames do IML, que mostraram que a vítima foi decapitada ainda viva.

“Em todo o momento ela nega que tenha decapitado Marcos quando ele ainda estava vivo. Quando ela deu essa versão, o laudo de exame corpo delito não tinha sido divulgado. Se ela soubesse que o laudo iria contradizê-la, ela não iria dar essa versão. Ela é inteligente. E mais. Essa versão tem pouca ou nenhuma relevância porque ela estava todo o tempo com o advogado dela. Evidente que ela estava sendo orientada. Ela é tudo, menos ingênua”, afirmou.

Cosenzo disse que o debate final entre a versão de Elize e a versão presente nos laudos será realizado no momento do júri. Mas, até lá, serão ouvidas testemunhas técnicas que darão o caminho tanto para o promotor quanto para a defesa.

“Na hora que tivermos o laudo, vamos ter uma bela discussão”, afirmou. O promotor descarta, por ora, pedir outra reconstituição do crime para confrontar as versões. “Não tem necessidade de reconstituição. Talvez peça alguns esclarecimentos para o perito. Mas só posso dizer isso depois que tiver de posse do laudo”, afirmou.

O advogado de Elize, Luciano Santoro, disse que ainda não teve acesso ao laudo oficial e classificou o documento como mais um elemento de prova do processo. “Eu vou ter que ler o laudo e requerer os esclarecimentos necessários. A Promotoria se baseia em um único laudo que é o laudo necroscópico. Eu, na verdade, enxergo de forma diferenciada. Vejo todos os elementos de prova em um contexto só. Adiciono um laudo ao outro e as provas testemunhas produzidas. Para mim, é só mais um elemento de prova.”

Reconstituição do crime
No documento sobre a reconstituição, os peritos afirmam que, segundo a versão de Elize, o tiro que atingiu Marcos ocorreu a 1,94 m de distância. Ainda de acordo com o laudo, exames técnicos e de DNA comprovaram que o sangue encontrado no apartamento é mesmo da vítima.

A distância do tiro e o momento da morte de Marcos são pontos divergentes em relação ao laudo do Instituto Médico Legal (IML) que examinou o corpo do empresário.

A reprodução simulada foi feita por peritos do Núcleo de Perícias em Crimes contra a Pessoa do Instituto de Criminalística (IC) da Polícia Técnico-Científica em 6 de junho.

O laudo está dividido em três partes (descrição do local; reprodução simulada; e dos exames) com um anexo (desenho esquemático da cena do crime). Ele trata somente dos fatos que ocorreram desde o momento em que o casal discutiu em 19 de maio, quando a bacharel revelou ao empresário que descobriu a traição dele, até o dia seguinte, quando ela deixa o apartamento triplex com as malas onde estavam as partes do corpo. Na reprodução, um policial interpretou Marcos.

As fotos mostram a mulher indicando como usou uma pistola, calibre .380, para atingir Marcos, e depois como utilizou uma faca de cozinha para esquartejá-lo e colocar os pedaços em três malas.

Passo a passo do crime
No laudo, 26 páginas mostram como foi o crime a partir do relato de Elize. A reprodução dos fatos teve participação de um policial no papel do executivo.

A sequência de fotos mostra desde o momento em que a bacharel come pizza ao lado do empresário na mesa da sala de jantar, passando pela discussão, tiro e esquartejamento. Todas elas seguem o relato da ré confessa.

O que não é simulado no laudo é o momento em que Elize pega o carro e descarta partes do corpo de Marcos em uma estrada de terra sem movimento na região de Cotia, na Grande São Paulo.  O laudo do Insitituto de Criminalística será anexado ao processo que tramita na Justiça. Ele será confrontado durante um eventual julgamento com as demais provas. O Ministério Público deve receber o documento ainda nesta semana.

Loading...
Related Video
 

About the author

More posts by carol

 

0 Comments

You can be the first one to leave a comment.

Leave a Comment