Obra do Metrô nas Águas Espraiadas, em São Paulo, repete gestão Maluf e ‘empurra’ famílias à periferia

“Quero agradecer também aos favelados que moravam aqui. Não teve nenhum problema. Ninguém tirou ninguém à força, não. Todos tiveram sua vida melhorada. Eles são pobres, mas são gente que tem dignidade e tem direito a viver bem. (…) Eu agradeço, porque Deus está me vendo. Quando a gente chegar lá (na hora da morte), Deus vai dizer pra gente: ‘olha, eu vi você lá na Água Espraiada, você melhorou a vida daquele povão. Vai ficar uns dez minutinhos no purgatório e pode ir para o céu.”

Assim Paulo Maluf, então prefeito de São Paulo, concluiu seu emblemático discurso de inauguração da avenida Águas Espraiadas –primeiro nome da atual via Roberto Marinho–, em 10 de janeiro de 1996. Na ocasião, Maluf referia-se aos cerca de 30 mil moradores de favelas que foram removidos para a construção da via, inaugurada a um custo de R$ 840 milhões, considerada na época a avenida mais cara do mundo.

Sobre a obra recaíram suspeitas de superfaturamento que provocaram a abertura da CPI do Banestado. Até hoje, Maluf e outros integrantes da prefeitura respondem por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção em razão dos supostos desvios em obras públicas. A suspeita é que o dinheiro desviado na construção da avenida foi enviado ilegalmente para paraísos fiscais. Por esta razão, Maluf é procurado pela Interpol e não pode colocar os pés em 181 países.

Ao contrário do que o então prefeito propagandeava, os despejados não viram seu direito à moradia ser respeitado: alguns tiveram que se contentar com passagens para retornar ao Nordeste; a grande maioria acabou aceitando os R$ 5.000 de indenização oferecidos pela prefeitura e só conseguiu um novo lar nos extremos da cidade, como no Jardim Educandário (zona oeste), Cidade Tiradentes (zona leste) e, sobretudo, nas regiões de mananciais da zona sul, onde é proibido construir.

Dezesseis anos depois, a história dos despejos da gestão Maluf repete-se com mais de 40 famílias que moravam há pelo menos 15 anos em imóveis cedidos pelo DER (Departamento de Estradas e Rodagem) –órgão do governo do Estado– e em março deste ano tiveram que deixar as residências por conta das obras da Linha 5-Lilás do Metrô.

‘Espraiados’

Quase todas as famílias aceitaram indenizações de R$ 85 mil, valor insuficiente sequer para dar de sinal em outro imóvel na região. Apenas três optaram por receber cerca de R$ 1.000 de aluguel social até receberem apartamentos da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano), cujas obras ainda não têm prazo para começar, nem local definido.

O valor total gasto pelo Metrô com as 46 famílias chega a R$ 3,2 milhões, o que representa menos de 0,05% do custo da obra. Ao todo, foram desapropriados 349 imóveis.

Com a indenização na mão, algumas famílias migraram para cidades do interior ou retornaram para o Nordeste, como é o caso de Manoel Ribeiro, que voltou para Campina Grande (PB), e de um morador conhecido como Josevaldo, que se mudou para a Bahia, onde acabou sendo assassinado meses depois. Outras se dividiram: pais para um lado, filhos para o outro. E a maioria delas só conseguiu comprar algo em bairros distantes, na periferia.

É o caso da aposentada Joana Luís Antonio, 77, que morava desde 1996 em um sobrado na avenida Santo Amaro, número 4.214, junto com a irmã de 74 anos. Após o despejo, se mudou para uma casa de três cômodos encravada em uma favela popularmente conhecida como “Morro Dunga”, na região do Jardim Miriam, extremo sul da capital. “Não consigo me acostumar. É muito longe. Lá eu tinha tudo perto.”

A trajetória de Joana é emblemática para mostrar a saga da população pobre em São Paulo na busca de um lugar para viver. Natural de Ribeirão Preto (SP), ela veio para a capital na década de 70, atrás de emprego. Arrumou trabalho como doméstica e passou a dormir na casa das patroas. Em 1979, aos 44 anos, engravidou e decidiu procurar uma casa própria. Foi parar em uma pequena favela na rua Joaquim Nabuco, no Brooklin.

Em razão das enchentes, teve de deixar o lugar anos depois, transferindo-se para outra favela próxima, na avenida Portugal, comunidade que foi removida para a construção da avenida Águas Espraiadas em 1995. Pelo despejo, Joana e o filho de 15 anos, que tinha síndrome de Down e não andava, receberam R$ 5.000.

Sem ter para onde ir, ela recebeu um convite de uma prima, que era casada com um funcionário do DER , para que ocupassem a casa na avenida Santo Amaro, já que eles iriam se mudar e o órgão precisava de alguém para cuidar do imóvel. “Ela falou: ‘você não quer ficar aqui? Te dou para você morar. Você tá precisando, tem um filho deficiente”’. Joana aceitou a proposta sem titubear.

Ela diz que só foi notificada pelo DER para deixar a casa nove anos depois que se mudou. Na época, recebeu três propostas: deixar o local, passar a pagar um aluguel mensal ou quitar a dívida do IPTU (Imposto Predial Territorial Urbano) dos nove anos. Ela optou pela terceira opção e continuou morando no imóvel, junto com a irmã –ela se separou do marido, e o filho morreu em 1998.

Quando soube que teria que deixar o imóvel por conta das obras do Metrô, diz ter se apavorado. “Pensei em tanta coisa. ‘Meu Deus, onde vou parar?’. Eu me apavorei.” Com os R$ 85 mil, começou a procurar outro lugar para morar.

Depois de muita procura, decidiu comprar a casa no Morro Dunga, pela qual pagou R$ 65 mil. Os R$ 20 mil restantes gastou com a reforma da nova casa, pela qual ainda não terminou de pagar. Ela e a irmã, que tem uma doença nos rins, já querem se mudar. “Não estou gostando daqui. Tenho muito medo dos tiros à noite.”

Sem-teto

A auxiliar administrativa Julia Brito Ribas, 57, funcionária do DER há 30 anos, ainda não encontrou um novo lar. “Essa desapropriação foi terrível. Eles acabaram com a minha vida. Nunca imaginei que fosse virar uma sem-teto.”

Ela morava há 15 anos em uma casa que ficava no número 70 da rua Arizona, para onde se mudou junto com o irmão após convite de antiga moradora, também funcionária do DER, que estava saindo do imóvel. O convite tinha a mesma motivação: necessidade de alguém para cuidar do espaço e evitar a ação de vândalos. “O lugar era precário, cheio de ratos e baratas. Nem esgoto tinha. Fiz encanamento, construí sala, quarto, banheiro. Deixei tudo bonitinho.”

A rua, relembra Julia, era um “lugar ermo” até a chegada dos moradores. “Não tinha serviço nenhum da prefeitura. Nós, moradores, cortamos o mato, arrumamos tudo, melhoramos a rua.”

Desde março deste ano, quando foi despejada, passa o dia no trabalho, na Vila Mariana (zona sul), vai para a faculdade, na Chácara Santo Antônio (também na zona sul), e dorme na casa de uma amiga, na Vila Brasilândia (zona norte). “Imagina o que é trabalhar o dia inteiro e não ter para onde voltar?”

Em razão da recente onda de violência na capital, Julia foi convidada por uma colega de faculdade a dormir na casa dela na Vila Romana (zona oeste). “Eu estava chegando em casa 0h30, 1h, então ela me ajudou.” Antes, Julia ia a pé de casa para a faculdade, que ficava a poucos quilômetros.

Julia ainda paga uma espécie de “aluguel” para guardar os móveis, que estão em um quarto na casa de um parente. Segundo ela, móveis e eletrodomésticos ficaram destruídos na mudança, que foi bancada pelo Metrô. “Eram todos móveis planejados. Como minha casa era pequena, fiz ela toda planejada.”

A auxiliar administrativa conta que procurou o Banco do Brasil para saber se conseguiria financiar um imóvel. “Até hoje não tive resposta. Quem tem baixa renda, não tem chance”, lamenta.

Despejo após 32 anos

A aposentada Maria Aparecida Fietta, 84, morava há 32 anos em um sobrado do DER no número 3.906 da avenida Santo Amaro. Ela passou a morar no local em 1980, após o órgão desapropriar o imóvel de um antigo dono por conta de uma obra viária que nunca foi realizada.

Segundo a aposentada, na época seu marido morreu. Ela, sem condições de pagar o aluguel da casa em que vivia, na rua Joaquim Nabuco, e insatisfeita com as enchentes recorrentes, começou a procurar outro lar. Sua irmã, então funcionária do DER, procurou um diretor do órgão, que liberou o imóvel para Maria Aparecida.

A casa tinha três dormitórios, copa, cozinha, três banheiros, lavanderia, quarto de empregada e quintal. “Durante muito tempo pagamos o IPTU. Depois, suspenderam a cobrança, mas nunca vieram nos aborrecer”, afirma.

Hoje, Maria Aparecida, seu filho de 55 anos, que tem deficiência mental, e um irmão estão morando na casa da filha dela no Jardim Vaz de Lima, região do Capão Redondo, periferia da zona sul. A filha, o marido e os dois netos da aposentada, por sua vez, mudaram-se para o lava-rápido onde trabalham, para liberar a casa para a avó.

“Aqui é longe de tudo, e eu não dirijo”, lamenta. “Eles deram uma mixaria. Procuramos pelo Brooklin, Campo Belo, Santo Amaro, mas as casas são muito caras”, diz.

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