Obama muda foco da política externa para o Pacífico e trata China com mais rigor

A paciência do presidente Barack Obama com a China vinha se esgotando havia meses e, em novembro de 2010, ele já estava farto. Numa reunião em Seul com o presidente chinês, Hu Jintao, ele alertou que, se a China não se empenhasse mais em conter o comportamento belicoso da Coreia do Norte, os EUA tomariam providências para se blindarem da ameaça de um ataque nuclear norte-coreano.

Pela primeira vez em meia dúzia de engessados encontros, Obama parecia falar duro com o líder chinês. Hu pediu a Obama que se explicasse melhor, segundo duas pessoas presentes na sala.

A resposta do presidente incluiu uma clara insinuação de que os EUA deslocariam navios de guerra para os arredores da China, o que certamente incomodaria os chineses, cada vez mais nacionalistas.

“Obama retirou o véu”, disse Jeffrey Bader, então o principal assessor presidencial para a China, que estava lá.

Ele acrescentou que o alerta levou o presidente chinês a mobilizar um diplomata graduado para pressionar a Coreia do Norte.

Autoridades disseram que a discussão marcou uma guinada na relação de Obama com a China, que havia começado com esperança e conciliação, mas caiu na desilusão.

Obama agora disputa a reeleição e sua posição mais dura transparece em várias frentes. A Casa Branca apresentou nos últimos três meses duas queixas contra a China na Organização Mundial do Comércio e o secretário de Defesa, Leon Panetta, anunciou planos para ajudar o Japão a instalar um novo sistema de defesa antimísseis, visto com desconfiança por Pequim.

Apesar disso, o candidato republicano Mitt Romney acusa Obama de não se contrapor suficientemente aos líderes da China, país que repentinamente se tornou um dos focos da campanha eleitoral.

O alerta de Obama em Seul prenunciou o que pode acabar sendo a mais significativa iniciativa de política externa da sua Presidência: a mudança de foco dos campos de batalha do Iraque e do Afeganistão para a bacia do Pacífico, onde Washington reforçou suas alianças com Japão e Coreia do Sul, abriu as portas para Mianmar e enviou marines à Austrália.

Embora esse novo foco tenha perturbado aliados na Europa, a emergência de um contrapeso à ascensão chinesa foi saudada com entusiasmo na Ásia.

“Repetidamente, ouvi líderes [...] basicamente dizerem: ‘Graças a Deus. Obrigado, estou muito feliz por você estar aqui. Estávamos preocupados com a América’”, afirmou a secretária de Estado Hillary Clinton.

Em entrevistas, 12 atuais e ex-funcionários do governo descreveram uma Casa Branca que sofreu para encontrar o tom certo com a China.

No começo, o presidente buscou uma acomodação com os líderes chineses, na esperança de que isso se traduzisse em boa vontade em questões como mudança climática e o programa nuclear iraniano.

Não foi o que aconteceu. A China menosprezou os EUA com relação às políticas climáticas, tardou em pressionar o Irã e começou a intimidar seus vizinhos com reivindicações territoriais no mar do Sul da China.

Esse último fato, em especial, convenceu o governo de que era hora de acabar com a acomodação.

Fontes da Casa Branca disseram que a viagem de 2009 a Pequim foi mais bem-sucedida do que a imprensa mostrou.

Mas eles não contestam que a impressão deixada foi a de uma potência em rápida ascensão -detentora de US$ 1 trilhão em títulos da dívida dos EUA- reagindo contra uma combalida nação americana.

O governo continuou pressionando Pequim a valorizar sua moeda, mas não qualificou a China como manipuladora cambial.

Um assessor se lembra de instruir Obama sobre várias questões antes de uma visita oficial de Hu em 2011.

Obama, que vê a China como uma ameaça aos empregos americanos, disse com impaciência: “A única coisa que interessa às pessoas são as questões econômicas”.

Mas, para um presidente com simpatias pelo Sudeste Asiático, as tensões no mar do Sul da China eram difíceis de ignorar.

Pequim via vastas extensões desse mar, partilhado com Vietnã, Filipinas e outros países, como seu território. Os interesses econômicos são enormes, por causa dos recursos submarinos.

A Casa Branca decidiu impor um limite. Numa reunião de cúpula no Vietnã, Hillary declarou que os EUA tinham interesse em resolver as disputas marítimas.

A China ficou lívida, ao passo que o Vietnã e as Filipinas sentiram ter um poderoso novo apoiador do seu lado.

Kurt Campbell, secretário-assistente de Estado para o Leste Asiático, considerou “simplista e errada” a ideia de que os EUA buscam conter a China ao estilo da Guerra Fria.

Ao mesmo tempo, afirmou, “os chineses respeitam a força, a determinação e a estratégia”.

Alguns ex-funcionários argumentam que não foi Obama quem mudou, e sim os chineses. “Dizem que fomos assaltados pela realidade”, disse Bader.

“Não, os chineses se comportavam diferentemente em 2010, e o que fizemos refletiu o comportamento deles.”

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