Livro retoma teoria conspiratória de que Hitler fugiu para a Patagônia

“Os deuses de muitas populações antigas eram, na verdade, extraterrestres que vieram à Terra e ensinaram coisas como construir pirâmides, estátuas gigantescas e canais aos primitivos humanos.”

 

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Livro retoma teoria conspiratória de que Hitler fugiu para a Patagônia

 

 

“O ditador nazista Adolf Hitler não se suicidou em Berlim no final da Segunda Guerra; veio de submarino para a Patagônia argentina. E o submarino afundou o cruzador brasileiro Bahia pelo caminho, em 4 de julho de 1945, pois sua tripulação estava bêbada.”

Qual dessas duas histórias é a mais incrível? A competição é dura. Velha maluquice do escritor suíço Erich von Däniken, o livro “Eram os Deuses Astronautas?” (1968) tem pelo menos o mérito de ser original.

Von Däniken fez uma palestra em São Paulo anos atrás na qual apresentou mais “provas” de que extraterrestres visitaram a Terra no passado e ensinaram os terráqueos. Como é praxe nesse tipo de autor, ele denuncia que existe uma conspiração do silêncio para evitar que esses “fatos” sejam conhecidos.

O suíço coleciona desenhos antigos em que homens parecem usar capacetes parecidos com os dos astronautas. Seriam “provas” de que astronautas extraterrestres visitaram a Terra…

Já a ideia de que altos hierarcas nazistas fugiram de submarino em 1945, expressa no livro “Ultramar Sul – A Última Operação Secreta do Terceiro Reich” [trad. Sérgio Lamarão, Civilização Brasileira, 490 págs., R$ 57,90], dos argentinos Juan Salinas e Carlos De Nápoli, é requentada.

A origem remota dessa tese absurda é a chegada de dois submarinos alemães à Argentina, em 1945, semanas depois de terminada a guerra na Europa. Em 10 de julho, a base naval argentina em Mar del Plata recebe o submarino alemão U-530, comandado por Otto Wermuth.

HITLER

Não demoraram a surgir rumores de que o submarino tinha contrabandeado líderes nazistas, inclusive Hitler e sua mulher, Eva Braun. O mito ganhou força com a publicação, no jornal argentino “La Crítica”, de uma história da fuga do “Führer” e da criação de uma base alemã na Antártida, escrita pelo húngaro Ladislao Szabo.

Em um livro de 1947, “Hitler Está Vivo”, Szabo afirma que os dois submarinos eram parte de uma frota maior que teria levado os nazistas até a Antártida, em um local onde havia passado uma expedição alemã antes da guerra batizado de Nova Berchtesgaden (alusão à cidade nos Alpes onde vários hierarcas nazistas tinham mansões).

Cinco semanas depois do U-530, Mar del Plata conhece o U-977, sob o comando de Heinz Schaeffer. Os dois comandantes e suas tripulações não haviam se conformado com a derrota alemã.

Wermuth e Schaeffer optaram por ir a um país que, durante a guerra, havia sido simpático à Alemanha nazista. A Argentina, afinal, só declarou guerra ao país europeu –com relutância– em 1945, depois de servir de refúgio a criminosos de guerra como Adolf Eichmann, capturado por agentes israelenses e executado após julgamento.
A captura do criminoso de guerra era algo até agora misterioso. Agentes israelenses em uma missão arriscada e diplomaticamente delicada no exterior não costumam se abrir com a imprensa. Mas, com a passagem do tempo, a história já pode ser contada em detalhe.

Foi o que fez o jornalista americano Neal Bascomb no livro “Caçando Eichmann – Como um Grupo de Sobreviventes do Holocausto Capturou o Nazista Mais Notório do Mundo” [trad. Maria Beatriz de Medina, Objetiva, 200 págs., R$ 47,90]. Um livro infinitamente superior ao dos dois argentinos, diga-se.

O pecado de Bascomb é um cacoete de autores de não ficção americanos: recriar cenas e falas, passeando pela mente dos personagens. O atenuante é a série de notas (infelizmente, concentrada no fim do livro), a conferir verniz de autenticidade aos diálogos.

DESMENTIDO

O comandante Schaeffer escreveu um livro refutando as invencionices de Szabo e descrevendo a longa viagem da Europa à Argentina, que incluiu o que era então um recorde de dias de submersão em uma mesma viagem: 66. Pioneiro, o livro foi importante por relatar a vida dos tripulantes de submarinos alemães. A edição aqui consultada é a americana de 1952, “U-Boat 977″ [Ballantine Books].

Quanto ao cruzador Bahia, as investigações da Marinha do Brasil concluíram que ele afundou por acidente, quando disparos de um canhão automático Oerlikon calibre 20 mm (“metralhadora”, no léxico da Marinha) atingiram cargas de profundidade na popa.
O único oficial sobrevivente do afundamento, o primeiro-tenente Lúcio Torres Dias, narrou o acidente. Resumindo: “Lá pelo quinto ou sexto disparo, uma tremenda explosão na popa sacudiu violentamente o velho barco. A rajada de granadas explosivas da metralhadora havia acidentalmente atingido as bombas de profundidade arrumadas sobre o tombadilho”.

Morreram no incidente 336 oficiais e marinheiros, incluindo quatro americanos. Houve apenas 36 sobreviventes na maior tragédia na história da Marinha do Brasil.

“Eu apontei o fato de que nós chegamos com nosso complemento total de torpedos e de que todos os nossos dados de navegação estavam disponíveis e nos absolveriam da suspeita. Cada homem a bordo do U-977 estava plenamente consciente de que uma ação agressiva depois da vitória aliada não serviria a nenhum propósito e com certeza traria consequências muito sérias”, escreveu Schaeffer.

Os dois autores argentinos retomaram e requentaram agora a saga. Nápoli fez uma divertida palestra na Casa do Saber, em São Paulo. Para ele, dos 20 submarinos do “comboio” nazista, nada menos do que seis chegaram à Patagônia!

“Nessa fuga, atacaram criminosamente o cruzador Bahia. A Marinha do Brasil continua abafando o caso”, declarou Nápoli.

FUGA

O mais importante especialista alemão na campanha submarina da Segunda Guerra, o historiador Jürgen Rohwer, deu uma palestra na Escola de Guerra Naval, no Rio de Janeiro, em 1982, na qual informou que não havia mais submarinos em missões de combate ao longo da costa brasileira em 1945. Segundo Rohwer, os U-530 e U-977 não estavam em operações, mas simplesmente fugindo.

“Todo tapado (tudo abafado)”, não cansa de repetir o autor argentino, que também fala em “pacto de silêncio”, nos “muito interesses” envolvidos e por aí vai. “Penso que era Hitler a bordo, mas não tenho provas”, admite Nápoli.

Dá para imaginar uma tripulação disciplinada de submarinistas, com Hitler a bordo, ficando “borrachos” ao comemorar a travessia do Equador e decidindo afundar um navio aliado já em plena paz? “Não há melhor mentira do que aquela que contém uma parcela de verdade”, afirmam, inadvertidamente, os autores argentinos. Estão certos.
Uma descrição da expedição à Antártida do navio Schwabenland, em 1938 e 1939, e do posterior nascimento do mito da base nazista foi feita pelos pesquisadores Colin Summerhayes, do Instituto de Pesquisa Polar Scott, da Universidade de Cambridge (Reino Unido), e Peter Beeching, de Toronto (Canadá). O artigo descrevendo a história, “Hitler’s Antarctic Base: The Myth and The Reality” (a base antártica de Hitler: o mito e a realidade), foi publicado no periódico científico “Polar Record” em 2007.

Dizem Summerhayes e Beeching: “Embora, sem dúvida, haja algo sedutor na ideia de uma base secreta nazista na Antártida, na ausência de provas para a sua existência, ficamos nos perguntando se estaríamos lidando com a literatura do absurdo representada por obras como ‘Eram os Deuses Astronautas?’, de von Däniken, que entrelaçam o ouro do fato com a escória da especulação, invenção e falsidade. O ônus da prova deve recair sobre os ombros daqueles que fazem as alegações. Não é suficiente propor uma ideia e então reivindicar que a hipótese não é testável porque as provas foram abafadas”.

 

 

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