Indústria de carros do Brasil passou a ser mais inovadora, diz estudo inglês

O dinamismo dos grandes países emergentes (China, Índia, Brasil) muitas vezes foi explicado por suas características próprias: alta taxa de poupança e de investimento, baixo custo da mão de obra, forte investimento no ensino, Estado forte, entre outras.

Um relatório recente do Institute of Development Studies (IDS), da Universidade de Sussex, no Reino Unido, traz um esclarecimento mais completo sobre o deslocamento da inovação na direção dos grandes países emergentes, observando, por exemplo, a indústria automobilística em São Paulo, no Brasil.

Nesse estudo de fevereiro de 2012, chamado “Shifts in Innovation Power to Brazil and India: Insights from the Auto and Software Industries” (“Transferência do Poder de Inovação para o Brasil e a Índia: Constatações a partir das Indústrias Automobilística e de Software”), Rasmus Lema, Ruy Quadros e Hubert Schmitz mostram que a transição da “produção” (que usa e adapta o estoque de conhecimentos existentes) para “a inovação” (que cria novos conhecimentos e os transforma em capacidade produtiva) embarcou definitivamente na indústria automotiva, o que permanecia controverso em estudos mais antigos.

Essa mudança se deve muito àquilo que os autores chamam de “organização da decomposição internacional da inovação”, um pouco como se fala da globalização dos processos de produção.

Longe de corresponder à visão simplista de uma “guerra econômica” entre novas e antigas potências, a análise documenta a imbricação internacional das cadeias de valor. A indústria automobilística, cuja integração global é uma realidade, é um caso exemplar.

No Brasil, por exemplo, os fabricantes locais de autopeças interagem com as filiais de grupos automobilísticos multinacionais. A inovação se desloca primeiro dentro desses grupos para suas filiais locais, e depois sua dinâmica é transferida para os fornecedores locais independentes.

Estes se tornam “codesenvolvedores” de novos produtos, serviços ou processos, tão logo tenham feito os investimentos necessários, sobretudo em capital humano.
Obsolescência do modo de pensar

As firmas brasileiras Arteb ou Lupatech, por exemplo, fornecem produtos inovadores diretamente à General Motors, e a Sabo trabalha com a Volkswagen a partir de sua filial europeia.

Os fabricantes de autopeças não entregam mais somente componentes, mas também design. Para isso eles cooperam com as universidades do país. E a indústria local, por sua vez, se envolve com uma organização internacional de inovação que pode beneficiar também as “antigas potências”.

Tudo isso mostra a obsolescência de nosso modo de pensar e das categorias: indústria “nacional”, países “industrializados” (onde na verdade setores inteiros da indústria mais ou menos desapareceram!), países “em desenvolvimento”, comércio “internacional”, balança comercial etc.

É patente a tensão entre uma organização política internacional, à qual estão sujeitos os Estados-nações, e a realidade produtiva da indústria e de serviços muitas vezes integrados globalmente a todas as etapas das cadeias de valor. Entender esse novo cenário é uma questão primordial para a elaboração de políticas públicas eficazes.

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