Entenda o programa federal Tesouro Direto

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O Tesouro Direto, a venda de títulos públicos à pessoa física, adiciona um ingrediente estranho ao mundo da renda fixa a qual muitos aplicadores estão acostumados: a volatilidade.

Não se trata da mesma montanha russa vista na Bolsa de Valores, mas o vaivém de preços pode incomodar aqueles que por anos, viram somente seu dinheiro crescer (ainda que pouco) em fundos DI ou na caderneta de poupança.

Entenda o programa federal Tesouro Direto

“Em que lugar do mundo você tem aplicação que paga uma taxa inflação mais 6% ao ano, como em alguns títulos? Em nenhum. (…) É uma senhora oportunidade”, comenta Ricardo Binelli, diretor de investimentos da Petra Corretora.

Mas especialistas ouvidos pela reportagem da Folha também afirmam que o investir em renda fixa pode ser tão complicado quanto o mercado acionário: em vez de operar uma ação, o investidor opera um título de renda fixa, com características próprias.

Por exemplo, um investidor que adquiriu um título pós-fixado (NTN-B, indexado ao índice de preços IPCA), para vencer em 2015, no início de maio, pagou em torno de R$ 2.045 a R$ 2.050 para o Tesouro Nacional.

Se no final do mês, quisesse revendê-lo para resgatar o dinheiro, esse investidor não toparia com os mesmos preços já que na última semana daquele mês o mesmo título era negociado por pouco mais de R$ 2 mil no mercado.

“Até há algum tempo, o mercado estava um pouco desorientado em relação à inflação. Mas agora, começou a se firmar a percepção de que a taxa de inflação vai começar a cair”, explica Márcio Percival, da vice-presidência de Finanças da Caixa Econômica Federal.

Fazendo valer a lei da oferta e procura, os agentes financeiros se desinteressaram de um título que paga a inflação, o que, pelo menos nos últimos dias, perdeu o caráter assustador.

E engana-se quem vê os títulos prefixados, em que a remuneração do papel é acertada no momento de compra, como um porto mais seguro (menos instável), pelo contrário.

“Se você tem um título prefixado, na verdade, o seu risco é enorme. A sua remuneração está dada. (…) Para o investidor, o que é bom hoje, se houver uma disparada da inflação lá na frente, vira uma porcaria”, diz Binelli, da Petra.

Também nesse caso as leis da oferta e da procura se impõem. Mesmo um título que prometa uma remuneração de 12% para o investidor pode se tornar menos atrativo no mercado caso ganhe força a opinião, entre os agentes financeiros, de que o governo vai empurrar os juros básicos para a casa dos 15% ou 16%.

É também senso comum entre os especialistas que os títulos prefixados são mais voláteis que os pós-fixados. O componente variável dos pós-fixados, seja a indexação à taxa Selic ou à inflação, tem o efeito prático de “amortecer” os efeitos das oscilações de opinião no jogo do mercado financeiro.

TEMPO É RISCO

Mas o componente realmente importante que explica o grau de volatilidade dos títulos públicos é o tempo. Ou melhor dizendo, o prazo de vencimento dos papéis. Nesse caso, a regra é clara: quanto maior esse prazo, mais instável. A razão também é simples: o curto prazo tende a ser mais previsível do que o longo prazo (do ponto de vista financeiro).

Assim, em tese, os títulos de renda fixa menos instáveis seriam os títulos pós-fixados de curto prazo, enquanto os títulos prefixados de longo prazo, os mais sujeitos à solavancos.

Esse cenário, claro, somente vale para os investidores que precisarem resgatar seus papéis antes do prazo de vencimento, algo bastante provável em se tratando em títulos a vencer daqui a quatro, cinco ou vinte anos, como é o caso dos títulos oferecidos no Tesouro Direto

Dessa forma, como escolher? “Os prefixados, na minha opinião, valem para quem acha que o juro vai cair, ou para quem quer ter certeza do que vai ganhar lá na frente. E por que comprar um título indexado ao IPCA? Você vai comprar um ‘hedge’ [proteção] para o seu custo de vida. E o LFT [indexado à taxa Selic]? Para se proteger contra a política monetária”, sintetiza Luís Fernandes Marcondes – responsável pela área de private da Spinelli Corretora.

“O investidor pode aplicar em investimentos pós-fixados, aproveitando o momento em que a taxa de juros Selic está subindo. Ele vai mudar quando esse ciclo de alta acabar, e a inflação começar a arrefecer. Será o momento de buscar os títulos prefixados novamente”, comenta Ricardo Torres, professor de finanças da BBS Business School.

CENÁRIOS

O investidor pode ter certeza de que verá mais volatilidade a frente: a calibragem entre juros e inflação está longe de ser definida nos cenários do mercado financeiro. Muita gente não concorda com a trajetória benigna para a alta dos preços propagada pelo governo.

“Eu sou bastante cético: eu acredito que o cenário aponta para uma inflação bastante alta em 2012. E avalio que, para evitar que ela permaneça em nível elevado no próximo ano, este ciclo de alta dos juros vai continuar, se estendendo até o final do ano, provavelmente”, diz Mauro Schneider, economista-chefe da Banif Investimentos.

Esse especialista teme que a inflação acumulada neste ano vai resultar numa “herança maldita” para a inflação do ano que vem, já vitaminada pelo reajuste do salário mínimo e pelos dissídios salariais acertados neste segundo semestre, e que prometem ser robustos.

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