Em delação premiada, transportador gaúcho acusa cooperativa do Paraná de liderar fraude do leite

Preso na última quarta-feira (22) em Rondinha (395 km de Porto Alegre) durante a segunda fase da Operação Leite Compen$ado, o transportador Antenor Pedro Signor aceitou nesta quinta-feira (23) a proposta de delação premiada oferecida pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul e confirmou que participava do esquema criminoso de adulteração do leite in natura, com adição de ureia e formol para mascarar a diluição com água.

Em depoimento aos promotores Mauro Rockenbach e Alcindo Bastos Filho, Signor afirmou que a cooperativa paranaense Confepar comandava o esquema de fraude e que rejeitou apenas uma carga do produto adulterado desde janeiro deste ano. Em média, a cooperativa comprava 30 cargas mensais de Signor.

O presidente da Confepar, Renatou Beleze, nega as acusações. Segundo ele, as denúncias de Signor apontando responsabilidade por parte da empresa na fraude do leite servem para “desviar o foco” da ação das quadrilhas, que agiam, de acordo com o executivo, sem o conhecimento da Confepar. “Nem nós nem qualquer outra empresa que aparece nas investigações tem culpa ou sabia da adição de água, isso posso garantir”, disse.

No depoimento ao MP, o acusado disse que começou a transportar leite para o posto de resfriamento da Marasca, em Selbach, no dia 20 de janeiro deste ano, depois de ter sido procurado pelo veterinário Daniel Riet Villanova. Representante da Confepar no Rio Grande do Sul, Villanova foi preso na primeira fase da operação, no dia 8 de maio.

Conforme confirmou aos promotores, dez dias depois da primeira carga Signor começou a utilizar uma fórmula de adulteração repassada, segundo ele, por um conhecido do grupo. Depois, o próprio veterinário apresentou a fórmula ao transportador e sugeriu sua utilização.

10% sobre a venda

O acusado confirmou ao MP que todo o leite entregue no posto de resfriamento de Selbach era da Confepar – tanto de seus caminhões quanto de outros transportadores. E ressaltou que a mistura de água e ureia era adicionada ao leite depois da coleta junto aos produtores e colocada em todos os tanques, não separando leite de boa qualidade de adulterado.

Como o transporte era pago por volume, o transportador lucrava pelo menos 10% sobre o valor da venda. Já a cooperativa aumentava seu volume de produção mesmo comprando menos leite do produtor.

Segundo o transportador, Villanova garantiu que nenhuma análise detectaria a adição de água no produto. A fórmula, no caso dele, consistia em adicionar 70 litros de água e 300 gramas de ureia em mil litros de leite – três vezes mais produto químico com formol, que pode causar câncer, do que as fórmulas já interceptadas pelo MP.

De cada 30 cargas de leite mensais o veterinário adulterava 20, de acordo com o acusado. Em média eram mandados para Selbach 600 mil litros do produto a cada 30 dias, o que pode ter gerado fraude em 1,2 milhão de litros apenas com a empresa de Signor.

Ele ressaltou ainda que seu irmão, Adelar Signor, também preso na quarta-feira durante a segunda fase da operação, não participava da fraude e não adicionava qualquer substância ao leite. Apenas Odirlei Fogalli, também detido pelo MP, sabia e participava das fraudes, quer dirigindo os caminhões na coleta do leite junto aos produtores, quer controlando as planilhas do produto coletado.

Metade da pena

Em função do acordo de delação premiada, o MP irá postular a redução de metade da pena eventualmente aplicada ao transportador. O promotor Mauro Rockenbach também deve requisitar a imediata concessão de liberdade ao depoente.

“Resolvemos propor esse acordo pela qualidade da informação trazida a nosso conhecimento. O principal objetivo neste momento é estancar a atuação predatória e criminosa da Confepar no Rio Grande do Sul”, disse.

O depoimento já foi encaminhado para a 7ª Promotoria de Justiça de Londrina, local da sede da Confepar, para as providências em face de procedimento investigatório já em tramitação naquela localidade. A empresa foi procurada pela reportagem, mas não atendeu aos pedidos de entrevista.

Nesta quinta-feira, mais um envolvido na fraude do leite também foi preso. O transportador Paulo Rogério Schultz teve o mandado de prisão expedido pela Justiça, após uma primeira negativa ao pedido do MP. Durante a segunda fase da Operação Leite Compen$ado foi recolhida em sua residência uma anotação contendo uma fórmula para adulteração do leite.

Nota

Em nota distribuída na manhã desta sexta-feira (24), a Confepar nega que tenha recebido cargas de leite de produtores do Rio Grande do Sul. “O leite apreendido pela Operação leite Compen$ado continua sob responsabilidade do Ministério da Agricultura e nunca foi destinado para nossa unidade industrial de Londrina”, salienta o documento.

A empresa afirma que tem um laboratório de análises e que verifica a qualidade de todo produto que entra em suas unidades industriais. Também informou que submete “normal e frequentemente” a análise de laboratórios externos, “isentos de qualquer interesse e credenciados pelo Ministério da Agricultura”.

A Confepar também esclarece que a Coopleite – Cooperativa Central de Captação de Leite, afiliada da empresa e responsável pelas coletas no Rio Grande do Sul – intensificou as análises doproduto em fevereiro, logo que foi notificada sobre indícios de adulteração pelo Ministério da Agricultura.

Segundo a nota, as análises não apontaram a presença de nenhuma irregularidade. A cooperativa se colocou à disposição do MP para esclarecimentos e assegurou aos consumidores que os produtos comercializados pela empresa “podem ser consumidos com a mesma segurança que garantimos há mais de três anos”.

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