Com El Niño e bloqueio atmosférico, país tem inverno com mais calor e ar seco em 30 anos

O calor e o ar seco registrados no inverno têm causado problemas a moradores e ao meio ambiente de quatro regiões do país, em especial Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste. Além do incômodo às pessoas da alta temperatura e baixa umidade do ar, a associação dos dois fatores tem causado grande número de focos de incêndio e agravado a seca em Estados nordestinos.

Segundo especialistas consultados, a soma de dois fatores explicam o fenômeno natural: a volta do El Niño e o deslocamento do campo da pressão atmosférica da parte africana do oceano Atlântico para o Brasil, o que criou um bloqueio à entrada de frentes frias. Por conta dos dois fatores, o inverno este ano já é considerado com a maior associação entre calor e ar em três décadas.

Associado ao forte calor registrado, a vegetação seca aumenta a quantidade de incêndios nas áreas de mata. Segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a região Nordeste –onde 1.175 municípios estão em situação de emergência por conta da seca— é a mais atingida.

Até 30 de agosto último, foram 28 mil focos na região, 180% a mais que os 10 mil registrados no mesmo período do ano passado. No país, houve o registro de 74 mil incêndios, com aumento de 84% em relação ao mesmo período de 2011.

O Estado com maior número de incêndios no país é o Maranhão, onde 15 mil já foram registrados este ano, com alta de 300% em comparação ao mesmo período de 2011. Proporcionalmente, o Ceará é o Estado que registrou maior crescimento, com alta de 511% (691 casos).

“Todo ano temos focos de incêndio aqui, só que este está bem mais intenso, pois a estiagem é maior. Já fizemos reuniões com Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Renováveis) e com o Corpo de Bombeiros para fazermos um planejamento e avaliarmos os possíveis focos de incêndio. É, sem dúvida, um caso que nos preocupa”, afirmou o coronel Hélcio Queiroz, coordenador da Defesa Civil do Ceará.

Volta do El Niño

Segundo o coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas, Humberto Barbosa, os problemas do clima são reflexo, entre outras causas, do retorno do fenômeno El Niño (aquecimento anormal das águas superficiais no Oceano Pacífico Tropical), que não aparecia desde 2010.

A volta do El Niño estaria sendo comprovada por dados do NOAA (Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera), que apontam para um aquecimento da temperatura do oceano até 1ºC.

“O fenômeno será de intensidade moderada e deve durar até fevereiro de 2013. Para os próximos meses, a temperatura continuará subindo. Historicamente, o aquecimento do Pacífico traz diminuição da chuva para o Nordeste, o que se projeta para as próximas semanas e meses. Ele também traz temperaturas acima da média”, disse Barbosa, citando que o ápice do fenômeno começou em julho e seguirá até novembro. Nesse período, a temperatura do ar deverá se manter acima da média.

Segundo dados do Lapis, cidades nas regiões sul do Piauí e Maranhão e norte do Maranhão registraram, em agosto, temperaturas máximas superiores a 40ºC, com umidade relativa do ar em 12%. Os números apontam para uma sensação térmica de calor intenso e falta de ar.

Barbosa informou que a combinação do El Niño com outros fatores fez com que o inverno de 2012 apresentasse diferença dos anos anteriores. “É normal no centro-sul haver invernos secos, entre julho e agosto. Mas este ano as temperaturas estiveram mais quentes. Foi um inverno seco e quente, quando normalmente é seco e frio.”

Segundo o meteorologista, os efeitos do El Niño são significativos para cada uma das regiões do país, especialmente na agricultura. “O Nordeste, por exemplo, deverá ser fortemente afetado por secas. Em áreas do semiárido, a diminuição da chuva pode alcançar até 80% do total médio do período chuvoso”, disse Barbosa.

“Todos os indicadores, de itens como milho e feijão, da agricultura de subexistência, têm expectativas péssimas para o próximo plantio. Até a safra do caju sofrerá prejuízos”, afirmou ele, citando que no Sul o tempo deverá ser inverso: “A tendência é de um excesso de chuvas, particularmente no Rio Grande do Sul. Isso é bom para a agricultura”.

Deslocamento de campo

Para o meteorologista e integrante do grupo de trabalho de prevenção e mitigação de desastres da OMM (Organização Mundial de Meteorologia), Luís Carlos Molion, o El Niño tem participação secundária na formação do clima quente e seco enfrentado pelo país. Para ele, outro fator é preponderante na mudança de tempo no inverno.

“Os nossos estudos mostram que o oceano Pacífico tropical ficou mais frio que o normal entre 1946 e 1966. Depois, entre 1976 a 1998 ele se aqueceu. E a partir de 1999 voltou a esfriar. Olhamos os impactos no clima do Brasil naquele período, e fizemos uma previsão por similaridade. Naquela época, na década de 50 e inicio de 60, vários anos nós tivemos secas semelhantes a essa”, disse.

“Também no período, o campo da pressão atmosférica localizado no Atlântico sul, que fica próximo à costa da África, se deslocou em direção ao Brasil. E isso provocou uma massa de ar quente e seco, que ficou parada, pegando do sul da Amazônia ao Sudeste brasileiro. As consequências que vivemos agora são iguais, com calor e umidade muito baixa. Isso ocorre porque a massa de ar quente bloqueia a entrada das frentes frias.”

Molion conta que as massas de ar seco e quente descem de altitudes de 8 a 10 km, sendo empurradas contra a superfície. “Como não há nuvens, a radiação solar é mais incidente, principalmente nessa faixa em que estamos, entre a linha do equador e 10º de latitude sul. Isso faz com que, além da secura, o ar e as temperaturas máximas sejam bastante elevadas. Com as nuvens, a radiação bateria e voltaria para o espaço superior. Como não tem, aquece a superfície e facilita o alastramento de focos de incêndio.”

Por conta do fenômeno, parte significativa do país tem vivido oscilações térmicas significativas. “Apesar do tempo quente, os ventos estão trazendo vento frio dos polos, e estamos sofrendo da maior amplitude térmica diária em 30 anos. Ou seja, as máximas ficam mais elevadas, assim como as mínimas, num período de 24 horas.”

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