Casas Bahia aproveitam pacificação e abrem loja na Rocinha

O aumento da renda, o crescimento da classe média e a instalação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) têm criado oportunidades de negócios em favelas com histórico de conflitos e violência no Rio de Janeiro.

Na terça-feira da semana passada (6), uma das grandes cadeias de varejo de eletrodomésticos e móveis do país, as Casas Bahia, inaugurou uma filial na maior favela do Brasil, a Rocinha, na zona sul do Rio.

A comunidade tem uma população de quase 70 mil habitantes, segundo os dados do último censo demográfico do IBGE (2010).

A Rocinha está ocupada por forças policiais desde novembro do ano passado. Mas a instalação da UPP, que conta com um efetivo de 700 policiais e ainda opera num sede administrativa provisória de quatro contêineres, só veio a ser concretizada em setembro deste ano.

“Nos últimos dez anos, a classe C passou a ser um mercado consumidor promissor. Já atendemos boa parte das pessoas que vivem em comunidades com  lojas de bairro e shopping. Mas com a inauguração na Rocinha, estamos ainda mais próximos delas e de onde elas vivem”, declarou Michael Klein, presidente do Conselho de Administração da Via Varejo, holding que controla as Casas Bahia.

A loja da Rocinha tem 1.427 metros², em três pisos, com 51 funcionários. Segundo a empresa, no Estado do Rio de Janeiro, os tamanhos das lojas variam de 250m² a 3.000 m². O número médio de funcionários vai de 40 a 50. As Casas Bahia não divulgam expectativa de faturamento.

A favela tem atraído outras empresas gigantes. A menos de 50 metros das Casas Bahia, existe uma loja da concorrente Ricardo Eletro, que funciona desde outubro do ano passado. A Ricardo tem 680 m², em três andares e 35 funcionários.

Como comparação, a loja da  Ricardo Eletro em Copacabana tem 800 m², dois andares e 21 funcionários. A empresa não revela faturamento, mas diz que a unidade da Rocinha é uma das 10 lojas que mais vendem, entre as 78 existentes no Rio.

Tanto as Casas Bahia quanto a Ricardo Eletro ficam no pé do morro, na Estrada da Gávea, um trecho marcado por intenso comércio de confecções, alimentos, oficinas, restaurantes, bares e biroscas.

Pacificação ajuda e atrapalha pequeno comércio

Para Daniel Plá, professor especialista em varejo e marketing da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio, o processo de pacificação opera com dois momentos. No primeiro o comércio nas áreas tende a sofrer uma queda; no segundo, cerca de um ano depois, a atividade volta a se fortalecer com o ingresso de novos comerciantes nas áreas.

Sua avaliação parece encontrar eco em comerciantes da Rocinha. “Nós atendemos aqui moradores e turistas e desde a ocupação, houve uma leve queda no movimento, mas nada grave no nosso caso”, disse Paulo César “Kodak” que há cinco anos está a frente de uma loja de revelação na Via Ápia, uma das mais tradicionais do comércio local.

Daniela Lopes, vendedora em uma pequena rede de lojas de artigos femininos, disse que também notou a queda no comércio.

Plá vem estudando o desenvolvimento do comércio de algumas das comunidades cariocas desde antes da primeira favela pacificada: o Morro do Santa Marta, em Botafogo também zona sul do Rio, que recebeu a UPP em 2008. Segundo sua avaliação, o processo de pacificação produz um efeito que pode ser sentido ainda antes de realizado.

“Basta anunciar que uma comunidade será pacificada para que os preços dos imóveis e dos alugueis subam. Isso leva a que novos moradores passem a habitar essas áreas. Além do dinheiro dos aluguéis que são mais altos, esstes novos moradores costumam ter uma renda de três a cinco vezes maior que os antigos”, afirma.

Para o professor, por conta da política de regularização do comércio, assim como intervenções urbanísticas desejadas pela administração pública, os pequenos comerciantes são os que mais sofrem. “As grandes redes já chegam nessas comunidades com alvarás definitivos, os pequenos sempre na precariedade dos provisórios.”

Formalização do comércio dá acesso a novos mercados

Segundo dados de um levantamento realizado pelo governo do Estado, em 2010, a Comunidade da Rocinha tinha 6.145 estabelecimentos comerciais, sendo que mais de 90% eram informais.

Para Carla Teixeira, coordenadora da Unidade de Desenvolvimento do Empreendedorismo em Comunidades Pacificadas do Sebrae, a pacificação e a formalização –a partir da figura do Empreendedor Individual- garantem acesso a novos mercados.

“Com CNPJ, os comerciantes podem oferecer serviços a entes públicos, além de comprar de empresas que não vêm direto ao consumidor final e exigem a figura jurídica para venda de produtos. Além disso, eles têm acesso a linhas de crédito preferenciais”, diz.

Ela afirma que, além de segurança, outros problemas precisam ser resolvidos, como infraestrutura. “Em muitos pontos das comunidades sequer existe possibilidade de acesso por veículos.”

A coordenadora diz que a entrada de grandes cadeias varejistas é um passo importante. “Esses estabelecimentos podem fortalecer a rede de serviços. Na Rocinha, já há agência de alguns bancos e várias lojas de maior porte. É um mercado que tem muito potencial”, declara.

Para Daniel Plá, a tendência é que nova cadeias se interessem em estabelecer nessas áreas. “Eu não duvido que em pouco tempo grandes lojas de departamentos se estabelecerão em muitas dessas comunidades. É um consumidor que, além de tudo, tem um cuidado muito grande com a manutenção do seu crédito e procura sempre não estar inadimplente”.

O Sebrae do Rio, que tem sedes e desenvolve projetos para empreendedorismo nas comunidades cariocas com UPPs, deve lançar em dezembro desse ano um levantamento com o perfil do comércio de 18 comunidades da cidade, entre elas a Rocinha. Devem constar dados sobre escolaridade, formalidade, faturamento, entre outros.

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