Brasil pode ser potência mundial da paz, diz ex-chefe nuclear da ONU

Na opinião do diplomata sueco Hans Blix, ex-chefe nuclear da ONU, o Brasil não cresce por causa de guerras, do Exército ou de sua força militar. O País cresce por causa “da imaginação dos brasileiros” e da cultura de solidariedade.

Ex-chefe dos inspetores da ONU no Iraque, em 2002 e 2003, antes da desastrosa invasão de EUA e Grã-Bretanha no país, Blix defendeu na época — o que depois foi comprovado — não haver armas de destruição em massa no país então comandado pelo ditador Saddam Hussein.

Nesta reportagem da série Hans Blix: a Voz da Energia, em que o sueco revela bastidores da Guerra do Iraque e do desastre de Chernobyl, o diplomata também discute o modelo de potência mundial no qual se encaixa o Brasil, que não prioriza os investimentos militares. Muito diferente do modelo bélico adotado por diversos países, e que explica, em parte, a atual supremacia norte-americana no mundo.

Hans Blix, que já visitou o Brasil quatro vezes, se surpreende ao comparar o País aos Estados Unidos.

Segundo ele, o que pode fazer do Brasil um País “diferente como nação grandiosa” é o foco na igualdade e na inclusão social.

— É isso que impressiona em comparação com os Estados Unidos, por exemplo, onde alguns políticos não querem o sistema de saúde pública para toda a população. Eu acho que a igualdade social e a solidariedade são menores nos EUA, pois no Brasil vocês sabem que toda a população tem que estar “no mesmo barco”. Especialmente a partir do governo Lula, há um caminho diferente.

Para um dos maiores especialistas do mundo em armas nucleares, “é hora de reconhecer a grandiosidade do Brasil”.

— E todo mundo pode ver que é um crescimento que não tem como base os meios militares, mas o oposto. É resultado da imaginação das pessoas (do poder criativo que essas pessoas têm), dos recursos naturais e também da grandiosidade do País.

Blix também aponta diferenças marcantes entre o Brasil e outras novas potências mundiais, como a Índia e a própria China.

— Um país como a Índia não tem o reconhecimento do mundo porque é uma nação que tem armas nucleares. Observem o Japão e a Alemanha, presentes em muitos lados do mundo. A imensidão não vem de ter armas nucleares.

Segundo Blix, o fator positivo hoje é “não ter armas”, pois “não têm que sacrificar muito dinheiro com estabilidade militar”.

— Cerca de 1,7 bilhão de dólares [R$ 3,4 bilhões] por ano são gastos no mundo em despesas militares, eu li isso numa revista um dia desses. O que estamos ganhando com isso? Japão e Alemanha ganham por não terem isso. O Brasil tem uma grande possibilidade de desenvolvimento e pode utilizar melhor o dinheiro dos contribuintes para outra coisa que não sejam os custos militares elevados. Todos precisam de algo para proteger as fronteiras, mas não tem que exagerar.

Após falar do Brasil com um entusiasmo incomum, Hans Blix se lembrou de algumas peças de artesanato que comprou no Rio de Janeiro e fez questão de mostrar uma árvore em pedras e arame que, com bom humor, destacou ter “a vantagem de ser desnecessário regar”.

Blix disse que quer voltar ao Brasil para discutir energia limpa e o domínio da tecnologia nuclear para produção de energia elétrica, mas confessou querer “passar pela Bahia para comer uma moqueca”.

— Eu tenho lido muito sobre o preparo dessa comida típica baiana e estou interessado em prová-la.

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