Auditoria revela rombo de R$ 2,2 bi no banco Cruzeiro do Sul

O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) revelou nesta terça-feira (14) que o rombo no Banco Cruzeiro do Sul (CZRS4.SA) passa de R$ 2,2 bilhões. A auditoria nas contas da instituição constatou a necessidade de “ajustes contábeis” de R$ 3,1 bilhões. Como o patrimônio líquido do banco era de cerca de R$ 850 milhões, esse valor será usado integralmente para bancar parte do “buraco” e ficam faltando ainda os R$ 2,2 bilhões.

O Cruzeiro do Sul teve sua intervenção decretada pelo Banco Central (BC) em 4 de junho, por descumprir regras do sistema financeiro. Na época, o BC estimou um rombo de pelo menos R$ 1,2 bilhão nas contas da instituição.

Em comunicado divulgado ao mercado na noite desta terça, o fundo que administra temporariamente o Cruzeiro do Sul revelou que, na data da intervenção, o patrimônio líquido do banco estava negativo em R$ 2,236 bilhões, “indicando a necessidade da adoção de providências imediatas tendentes à sua capitalização (…)”.

Proposta é dividir os prejuízos

A proposta do Fundo Garantidor de Crédito é dividir os prejuízos entre os credores do banco, já que seus atuais acionistas controladores estão com os bens pessoais indisponíveis. A ideia é que os credores assumam uma perda de cerca de 49%.

“(…) não resta alternativa para a solução da situação a que se encontra submetido o BCSul, que não a efetiva participação de seus credores na busca de uma solução para sanar o desequilíbrio patrimonial evidenciado.”

O Fundo também anunciou que está lançando uma oferta de recompra dos títulos emitidos pelo Banco Cruzeiro do Sul no mercado de capitais internacional. A oferta com deságio, que vai até 12 de setembro, será coordenada pelos bancos HSBC e Bank of America Merrill Lynch, informou o FGC. O deságio médio na recompra será de cerca de 49%, disse a jornalistas o diretor do FGC, Celso Antunes da Costa.

Para a operação ser efetivada será necessária a adesão de credores que detenham pelo menos 90% dos papéis que serão alvos da oferta.

Cruzeiro do Sul procura comprador

Uma proposta firme de compra do controle do Cruzeiro do Sul por outro banco também é uma pré-condição para a proposta do Fundo ser levada adiante.

“Caso qualquer das condições se frustre, a operação será automaticamente cancelada, situação na qual o FGC recomendará ao Banco Central… liquidação extrajudicial da instituição”.

Nesse meio tempo, o Fundo oferecerá a possibilidade de aquisição do controle do Cruzeiro do Sul a instituições financeiras que tenham patrimônio líquido de pelo menos R$ 2,5 bilhões, com garantias de aporte de capital em dinheiro.

Intervenção do BC

O Banco Central decretou Regime de Administração Especial Temporária (Raet) no Banco Cruzeiro do Sul por 180 dias após ter identificado descumprimento de regras do sistema financeiro.

A autoriade monetária também instituiu pelo mesmo prazo o Raet nas empresas do grupo Cruzeiro do Sul, que incluem Cruzeiro do Sul Corretora de Valores e Mercadorias, Cruzeiro do Sul DTVM, e Cruzeiro do Sul Companhia Securitizadora de Créditos Financeiros, informou o BC em comunicado.

Segundo o BC, foi identificada “insubsistência em itens do ativo”, mas a autoridade não informou detalhes.

Por meio do Raet, o BC substitui os dirigentes da instituição por um conselho de diretores ou por uma pessoa jurídica especializada para corrigir procedimentos operacionais ou eliminar deficiências que possam comprometer o funcionamento.

Como resultado da intervenção, o BC nomeou o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como administrador especial temporário do Cruzeiro do Sul. Para os clientes, o banco funciona normalmente.

Histórico negativo

Não é de hoje que o banco Cruzeiro do Sul atravessa problemas. Com quase 20 anos nas mãos da família Indio da Costa, a instituição coleciona um histórico recente marcado por balanços reprovados por auditores, acusação de desvio de recursos e investigações por parte das autoridades.

A lista de tropeços do Cruzeiro do Sul começou a vir à tona em 2008, um ano depois de o banco estrear na bolsa de valores, vendendo cerca de R$ 645 milhões em ações. Desse valor, os Indio da Costa embolsaram R$ 150 milhões.

A instituição, que tinha R$ 2,6 bilhões em operações de crédito consignado, estreou valendo R$ 2,15 bilhões.

Em setembro de 2008, a massa falida do banco Santos acusou, em um processo judicial, o Cruzeiro do Sul de ter desviado R$ 206,2 milhões dos credores da instituição que pertenceu a Edemar Cid Ferreira. O caso ainda está correndo na Justiça.

Um ano depois, no fim de 2009, o banco anunciou a intenção de fazer uma nova oferta de ações, em uma operação que somaria R$ 400 milhões, entre novos recursos para o Cruzeiro do Sul e a venda de parte das ações dos Indio da Costa. Logo, porém, o processo foi abortado, em meio a uma sucessão de episódios negativos.

Em janeiro de 2010, o Banco Central começou a questionar as operações do Cruzeiro do Sul de venda de carteiras para fundos de direitos creditórios. Depois desse repasse, o próprio banco comprava as cotas do fundo, em operações que, para o Banco Central, poderiam ser irregulares.

No mês seguinte, foi a vez de a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) fazer marcação cerrada em cima do banco. A autoridade mandou o Cruzeiro do Sul republicar seus balanços de 2008 e 2009 sob o argumento de que a instituição não estava consolidando em seu balanço os fundos de direitos creditórios que detinha.

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