Após um ciclo reinando como Popov, Cielo pode igualar feito nos 50m livre

A parede do quarto sempre foi um lugar sagrado para Cesar Cielo. Foi nela que, por um longo tempo, Alexander Popov “morou”. Todos os dias, nos bons e nos ruins, acordava e dormia olhando para aquele pôster. Tinha só 14 anos, mas queria ser como o nadador russo quando crescesse. Homem mais rápido do mundo, recordista mundial e duro de ser batido. Desejou tanto e com tanta força, que o sonho se realizou. Desde a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim-2008, Cielo não saiu mais da ponta nos 50m livre. Em quatro anos, estabeleceu novas marcas olímpica e mundial, foi dominante nos Mundiais de Roma-2009 e Xangai-2011 e manteve seu trono sem ameaças com ou sem os trajes tecnológicos. Em Londres, poderá entrar para um grupo seleto, do qual apenas Popov (1992 e 1996) e Gary Hall Jr. (2000 e 2004) fazem parte. Se vencer a final desta sexta-feira, que também conta com a presença de Bruno Fratus, se tornará o terceiro bicampeão consecutivo da prova.

O menino que um dia quis ser Popov passou a entender melhor o ídolo depois que passou a sentir na pele o preço do reinado. Nesse período, teve que aprender a lidar com a pressão. A cabeça precisou mudar. Em alguns dias de treino brigou com a piscina, mas sempre fez as pazes com ela. O grau de exigência aumentou, a mania de perfeição cresceu e a lista de desafetos se ampliou. Todos de olho comprido na coroa dele.

- Quando eu era pequeno lembro que o Popov falou uma vez assim: “Chegar ao topo não é complicado. Difícil é se manter nele. No topo a pressão maior não é a externa, mas a interna”. Li isso, deixei passar, mas ficou guardado de alguma forma. Hoje tenho essas frases vivas na minha cabeça. No topo você vê se é bom ou não. O desafio diário é constante e muito doloroso. É um confronto mental. Hoje a intensidade é maior e o controle psicológico é o que faz a diferença mesmo. Tem feito diferença nos dois últimos anos para cá. Fui meio que calejando com o tempo. Isso não tem como aprender lendo livros ou com frases – disse.

Popov não mostrava no rosto o que sentia. Os rivais dizem que ele costumava ganhar as provas antes de entrar na arena, no banco de controle. Naquela sala, o semblante tranquilo intimidava. Não foi à toa que passou a ser chamado de Homem de Gelo. Cielo também impõe respeito ao seu jeito. A expressão antes da prova ficou mais suave ao longo dos anos mas, ao contrário do russo, ele ainda não consegue esconder a emoção diante da conquista de uma medalha, por exemplo. Cielo tenta manter o equilíbrio entre o quente e o frio, entre o falar e o calar. O antigo rei, não. Sempre foi incisivo com as palavras. O próprio fã já foi alvo de algumas delas, seja por não achá-lo o favorito em alguma disputa ou pelo julgamento no caso de doping.

Eu ainda o tenho como espelho e minha ideia não era superá-lo. Mesmo com os títulos que possuo não consigo me imaginar na frente dele. É aquela sensação de o discípulo nunca conseguir superar o mentor. O sentimento é o mesmo nos casos do Gustavo Borges e do Fernando Scherer. Mesmo que estejam parados há anos.

Seu ex-técnico, Brett Hawke, que nadou com Popov, não tem dúvidas de que Cielo seria capaz de bater o Homem de Gelo caso estivessem lado a lado numa piscina. Ele desconversa. De qualquer forma, no papel, o brasileiro tem no currículo os dois títulos mundiais consecutivos que o russo não conseguiu conquistar.  E ainda parece ter fôlego para mais.

- Eu queria ganhar algo, ser campeão mundial, mas uma vez na vida. Depois da primeira, quis manter uma constância bacana para conseguir resultados, melhorando sempre, treinando sempre. Quando a gente alcança algo a sensação é de dever cumprido. Desde criança, quando ganhei pela primeira vez, continuo me desafiando. A cada ano você tem que ser mais responsável e melhorar uma coisinha. O desafio é o que mais me sustenta. Aquela adrenalina boa antes das provas é como a sensação de saltar de paraquedas. Eu não consigo explicar. Isso me mantém mais vivo do que nunca.

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